conceitos para entender o Abraço:

#1: culturas não hegemônicas

Conceitos para entender o Abraço Cultural

No Abraço Cultural capacitamos pessoas em situação de refúgio e migrantes em situação de vulnerabilidade para dar aulas de idiomas e culturas. Assim, oferecemos cursos de árabe, espanhol, francês e inglês e realizamos ateliês, oficinas e eventos culturais.

Ou seja, todos os nossos professores e professoras vêm de países que enfrentam ou enfrentaram recentemente conflitos armados ou situações de graves e generalizadas violações de direitos humanos. Quando falamos em migrantes vulneráveis pensamos em pessoas que vêm de países que sofrem fortes desigualdades sociais e vivem profundos desafios em termos de qualidade de vida. Mas o que esses têm países em comum?

São países considerados “em desenvolvimento”, territórios que passaram por processos de colonização e, posteriormente, sofreram influência de políticas imperialistas e de dominação. Por esses motivos, permanecem com o status de países não desenvolvidos pela perspectiva de dominação ocidental.

Sendo assim, buscamos realizar todas as nossas atividades orientadas por perspectivas e referências que valorizem os países e regiões do chamado Sul global (cujo termo será trabalhado posteriormente), de onde também vêm nossos docentes.

Convidamos você a compreender e refletir sobre alguns dos valores que nos guiam no aspecto de ideais da construção das nossas atividades: culturas não hegemônicas, pensamento pós-colonial e decolonial, Sul global e Epistemologias do Sul. 

Neste primeiro artigo, vamos abordar a ideia de culturas não hegemônicas.

#1: culturas não hegemônicas

Ao falar de culturas não hegemônicas, precisamos ter bem claro em mente o que significa hegemonia e contra-hegemonia. Portanto, primeiro vamos adentrar nestes conceitos:

No dicionário, o termo hegemonia aparece definido como: “1. supremacia, influência preponderante exercida por cidade, povo, país etc. sobre outros; 2. autoridade soberana; liderança, predominância ou superioridade”.

A hegemonia foi identificada por Gramsci como uma liderança cultural por meio da qual determinadas ideias e formas culturais predominam sobre outras (Said, 1990). 

Ela exerce um papel determinante na formação de um bloco histórico, cultural e social cujos agentes depositam os seus interesses e aspirações em um projeto que chega a obter a aprovação das classes subalternas. Aquele conceito envolve, portanto, aspectos como dominação, persuasão e consenso (Aguiló, 2019).

Para entendermos quem seriam os agentes da hegemonia, então, primeiramente devemos pensar no contexto histórico em que foi potencializada a dominação cultural que marcará as relações do Ocidente com os demais povos não ocidentais.

Vale ressaltar que, quando aqui falamos do “Ocidente”, não estamos nos referindo ao lado oeste da linha meridional – conhecida como Meridiano de Greenwich – que divide a terra entre os hemisférios ocidental e oriental. Do ponto de vista daqueles que estão no Norte, o termo em questão pode vir acompanhado de uma carga discriminatória: ele é entendido enquanto sinônimo de desenvolvimento, democracia e cultura de base europeia (Rodarte, 2018). Ao analisarmos o Ocidente, portanto, estaremos tratando de um bloco cultural, e nos referindo, sobretudo, à hegemonia europeia e norte-americana. 

Para entendermos de que forma a hegemonia se consolidou no âmbito da dominação ocidental, devemos ter em vista que as potências hegemônicas e os povos que foram por ela subjugados estavam situados assimetricamente em relação ao poder. Conforme sublinha Hall (2005), as nações ocidentais modernas foram também os centros de impérios ou de esferas neoimperiais de influência, exercendo, assim, uma hegemonia cultural sobre as culturas das terras colonizadas.

Pensemos, por exemplo, nos avanços vivenciados pela Europa em decorrência da Revolução Industrial a partir do século XVIII. Naquele período, o fortalecimento experimentado pelo continente europeu permitiu a sua expansão e a colonização de diferentes regiões no século XIX. Esse movimento, por sua vez, foi acompanhado por uma tentativa de hegemonização cultural que marginalizou as culturas, tradições e costumes das regiões invadidas. 

Naquele cenário, a posição de poder ocupada pela Europa influiu sobre a sua visão em relação às terras invadidas – e consequentemente moldou o discurso por meio do qual os europeus retratariam aqueles lugares e os povos que neles viviam.

“os Europeus tinham posições de dominação superiores em relação aos Outros. Isso influenciou o que viram e como viram, assim como o que não enxergaram” (Hall, 2016: 336).

O discurso, nesse sentido, revelou-se como um elemento essencial para a legitimação da dominação cultural. A narrativa empregada para descrever os povos colonizados reflete a perspectiva hegemônica dos colonizadores – e aquelas estratégias discursivas construídas no período da colonização seguirão fazendo eco no período pós-colonial, sendo muitas vezes reproduzidas, inclusive, pelos próprios povos subalternos (colonizados).

No entanto, os processos de descolonização da África e da Ásia no período posterior a 1945 foram acompanhados por uma crescente conscientização política do mundo não ocidental. Assim, é também no período pós-colonial que manifestações não hegemônicas começam a ser desencadeadas de forma cada vez mais significativa. De que se tratam, portanto, as manifestações em questão?

contra-hegemonia, de modo geral, evoca a produção social de uma multiplicidade de formas alternativas de resistência, experiência e luta que possibilitam não apenas a difusão de um discurso crítico capaz de combater radicalmente a ordem ideológica e hegemônica, mas também a criação de sujeitos políticos, relações sociais e espaços públicos capazes de se apropriarem da cultura para dar a elas um novo significado e colocá-las a serviço das classes subalternas (Aguiló, 2019).  

No Abraço, portanto, buscamos fazer eco a esse movimento através da concessão de protagonismo aos sujeitos cujas culturas não estão na posição hegemônica de dominação.

Quer entender melhor sobre o pensamento pós-colonial e decolonial?

Fique de olho no nosso próximo artigo da série Conceitos para entender o Abraço!

Feito em colaboração com Laís Narayne Neves, mestra em Relações Internacionais e voluntária e aluna do Abraço Cultural no RJ.

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ

Referências:

AQUILÓ, Antoni Jesús (2019). Contrahegemonía/Hegemonia. Dicionário Alice. Disponível em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=2&entry=24243. Acesso em 16 de janeiro de 2020.

HALL, Stuart (2005). A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 10ª Edição. Rio de Janeiro: DP&A.

HALL, Stuart (2016). HALL, Stuart (2016). O Ocidente e o Resto. Tradução de Carla D’Elia. Revisão técnica de Bebel Nepomuceno. Projeto História. Disponível em https://revistas.pucsp.br/revph/article/view/30023/20834. Acesso em 17 de janeiro de 2021.

SAID, Edward W. (2007). Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras.

RODARTE, Leonardo (2018). Você se considera ocidental? Para grande parte do mundo, o Brasil não faz parte do Ocidente. Notícias Uol. Disponível em https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2018/09/24/brasil-nao-e-pais-ocidental.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 16 de janeiro de 2021.

WALLERSTEIN, Immanuel (2001). El Eurocentrismo y sus avatares: los dilemas de las ciências sociales. Revista de Sociología. (15). DOI: 10.5354/0719-529X.2001.27767.