a cultura da erva-mate (متّة)

na síria e no líbano

Parte das populações da Síria e do Líbano apreciam a bebida sul-americana da erva-mate ao ponto de, ao longo das últimas décadas o consumo da mesma ter virado um hábito, integrando a própria cultura de alguns grupos desses dois países. Fato que não é tão conhecido, mas é um exemplo vivo das trocas culturais resultantes dos fluxos de migração entre a área do Levante e a América do Sul. A história por trás do amor do Levante pela erva-mate é resultado, principalmente, da instabilidade política e conflitos na região somado ao consequente fluxo de pessoas através dos oceanos.

Em algumas regiões do Líbano e da Síria, principalmente as montanhas próximas ao litoral Mediterrâneo, você poderia ser facilmente recebido com petiscos como tâmaras e nozes acompanhados de um copo de erva-mate, a bebida patrimônio indígena e ícone nacional da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e do sul do Brasil.

Até a colonização europeia na América do Sul no século 16, fontes indicam que o mate era consumido exclusivamente pelos povos indígenas das etnias Guarani e Tupí. Hoje, de todos os países do mundo, é a Síria que mais importa erva-mate. E se o Líbano fosse mais populoso, ele rivalizaria com seu vizinho pelo título.

Mas o motivo pelo qual um agricultor nas montanhas próximas ao litoral sírio e um fazendeiro nas planícies argentinas poderiam se unir facilmente por uma caneca de mate é explicado pela história de 160 anos de tumulto político, migração e o avanço da globalização. O amor levantino pelo mate permanece como um símbolo de um grupo relativamente pequeno de pessoas que construíram um impacto significativo na cultura da região.

Cruzando o Atlântico:

Loja de imigrante na Rua 25 de Março: de mascates a comerciantes

A América Latina abriga a maior população de árabe e descendentes fora do Oriente Médio, com estimativas que variam de 17 a 30 milhões de pessoas. Estima-se que só no Brasil exista em torno de 7 milhões de descendentes de árabes.
A grande maioria desses latinos árabes tem raízes na Síria, no Líbano e na Palestina, mas eram comumente rotulados como “turcos”, uma vez que quando os levantinos começaram a chegar à América do Sul na década de 1860, a Síria, o Líbano e a Palestina não existiam como nações soberanas, mas como parte do Império Turco Otomano.

Em 1860, uma guerra civil entre os cristãos maronitas locais e seus dirigentes drusos abalou a região montanhosa do Líbano moderno, deixando quase 20.000 cristãos mortos. A guerra fez com que alguns fugissem da região e se dirigissem para a costa ou para o outro lado do Oceano Atlântico.

A paz que se seguiu trouxe avanços que geraram um aumento demográfico na área. As economias em processo de globalização e industrialização do final dos anos 1800 começaram a absorver pessoas a meio mundo de distância umas das outras. O mundo se abriu de uma maneira nunca antes vista. As oportunidades econômicas oscilantes no Levante e na América do Sul moldaram a vazante e o fluxo de pessoas entre ambas regiões.

Beirute inchou, mas o aumento de pessoas não foi acompanhado pelo aumento de oportunidades de emprego, fortalecendo a emigração para o exterior. Libaneses desempregados foram para as Américas e alguns voltaram, carregando riquezas e histórias de sucesso, encorajando outros a fazer também a longa jornada.

Cerca de 80.000 sírios e libaneses chegaram ao Brasil entre 1870 e 1947. Um número maior ainda, porém, desembarcou nos EUA e na Argentina. A viagem custava caro. Alguns migrantes tiveram que vender seus pertences para cobrir os altos custos de um passaporte e de uma passagem pelo oceano. Parte dos imigrantes levantinos na América do Sul chegaram aqui sem querer. As empresas de navegação enganavam os esperançosos oferecendo passagem para a “América” ​​e os transportando para portos latino-americanos como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Vera Cruz e Santos. Incapazes de pagar uma nova passagem para outro lugar, eles se estabeleceram, adaptaram-se e começaram a trabalhar.

O impulso para deixar o Líbano no início do século 20 não foi simplesmente um resultado dos mercados de trabalho globais. No século 19, as escolas missionárias europeias e os bem-sucedidos emigrantes voltando para casa trouxeram uma “orientação ocidental”, nas palavras da estudiosa Eliane Fersan. O Líbano adotou estilos de vida e estética europeus que atraíram os jovens locais do Mediterrâneo e do Atlântico. A perspectiva de liberdade de expressão nas Américas atraiu outros que começaram a publicar revistas e jornais árabes sobre a vida e a política no Levante.

As consequências dos conflitos:

À medida que oportunidades econômicas puxavam as pessoas para a América do Sul, o conflito afastava outras do Oriente Médio. Uma série de conflitos armados envolveu a área do Levante a partir do século 19: a rebelião dos drusos contra os otomanos em 1909, a Guerra ítalo-turca de 1912, a Primeira Guerra Mundial e o colapso do Império Otomano, a Guerra Franco-Síria em 1920, a Grande Revolta Síria, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Árabe-Israelense em 1948 e a Guerra Civil Libanesa em 1958. A cada conflito, grupos de libaneses, sírios e palestinos fugiram para territórios mais seguros – outros países árabes, Europa, EUA e América do Sul. Ainda assim, a migração do Levante para a América do Sul diminuiu drasticamente imediatamente após a Primeira Guerra Mundial.

Ao longo deste drama intercontinental de 160 anos, os imigrantes sírios e libaneses que desembarcaram na América do Sul se estabeleceram muito bem na paisagem social local e tiveram um impacto impressionante no continente. Aqueles que voltaram para o Levante carregaram lembranças de seus lares adotivos – entre eles a erva-mate.

O mate no Levante:

Os imigrantes na América do Sul começaram a retornar ao Oriente Médio em grande número a partir da década de 1970. Foi quando as condições econômicas em países sul-americanos como Argentina e Brasil entraram em declínio. Ao mesmo tempo, os países do Oriente Médio estavam passando por um aumento da produção de petróleo e uma subsequente alta econômica. Muitos imigrantes dos séculos 19 e 20 decidiram retornar à sua terra natal, trazendo a erva-mate.

Assim, já na década de 1970 e além, foi possível observar o aumento nas exportações de erva-mate para a Síria e o Líbano, respondendo pelos imigrantes que retornaram e queriam continuar bebendo mate. Em particular, os Drusos.

Jabal al-Druze, no sul da Síria, e as montanhas Chouf do Líbano são as regiões mais mergulhadas na erva-mate. Eles também são o lar dos Drusos. Mate tem uma importância particular para este grupo étnico-religioso com comunidades nas montanhas do Líbano, Síria e Palestina. Embora seja vista em outras regiões, a erva-mate é mais comumente consumida nas aldeias drusas e nas regiões montanhosas.

Com o tempo e a distância, a tradição do mate se adaptou ao novo lar, ela própria uma imigrante em uma nova terra. Como os imigrantes levantinos na América do Sul, ela provou ser uma parte pequena, mas significativa da paisagem, moldando novas relações tanto com continentes distantes quanto com vizinhos.

No Levante, uma terra fragmentada por fronteiras e presa no meio das aspirações de poder de muitas nações, o mate serve como um terreno comum improvável. É um lembrete de uma história compartilhada por pessoas em lados opostos do mundo que se abriram à diversidade das trocas culturais, levando e deixando novas influências e aprendizados em cada lado do oceano.

Vídeo mostrando um dos modos mais populares de consumo do mate na área do Levante.

Fontes:

Uma integração exemplar? Árabes na América Latina. Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/arabes-na-america-latina/> . Acesso em: 22 de setembro de 2021.

Yerba mate: cómo Siria se convirtió en el mayor comprador de este producto en el mundo. BBC News Mundo. Disponível em: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-51392066; . Acesso em: 22 de setembro de 2021.

Interesting story of yerba mate tea in Syria. Enab Baladi. Disponível em: <https://english.enabbaladi.net/archives/2020/01/interesting-story-of-yerba-mate-tea-in-syria/; . Acesso em: 22 de setembro de 2021.

The History and Traditions of Yerba Mate in Lebanon and Syria. Yerba Matero. Disponível em: <https://yerbamatero.com/blogs/history/history-traditions-yerba-mate-lebanon-syria; . Acesso em: 22 de setembro de 2021.

Levantine Love of Yerba Mate Tells a 160-Year Trans-Atlantic Tale Inside Arabia. Disponível em: <https://insidearabia.com/levantine-love-yerba-mate-tells-160-year-trans-atlantic-tale/; . Acesso em: 20 de setembro de 2021.

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A ideia desse conteúdo surgiu dos momentos ricos de convivência e trocas com os professores de árabe do Abraço RJ, que dividem diariamente os seus conhecimentos, saberes e fazeres com outras pessoas de forma tão interessante.  !شكراً

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ