#Leia Literatura latino-americana:

um livro de cada país para ler

Quantos livros de autores e autoras latinos tem na sua estante? Se você não tem uma boa quantidade, já se perguntou por que isso acontece? Infelizmente, a literatura latina ainda é pouco consumida no Brasil e também enfrenta dificuldades para chegar ao país.

Conversamos um pouco com Vinícius, responsável pela página no Instagram Latina Leitura e discutimos um pouco sobre a literatura latino-americano e os porquês da mesma não ser tão consumida pelo público brasileiro.

Os fatores para isso podem ser vários, mas Vinícius destaca um em especial: “nós, brasileiros, não nos identificamos como latino-americanos! Pela perspectiva mercadológica, uma grande editora está mais interessada em lucrar com a venda de livros do que formar um público leitor. E aí entramos em um movimento que se retroalimenta: as grandes editoras não publicam livros latino-americanos porque não vendem e os leitores não compram porque não se percebem enquanto latino-americanos.”

Porém, ele também enxerga novos movimentos para mudar essa padrão no presente: “Contudo, isso é uma constatação que podemos fazer se pegarmos o capítulo em que estamos. Se lermos os capítulos anteriores, vamos perceber que esse cenário vem se alterando nos últimos anos. Hoje, me parece que cada vez mais e mais brasileiros estão se identificando como latino-americanos e, consequentemente, buscando mais literatura latino-americana. Do outro lado, são sobretudo as editoras independentes que estão mudando o mercado editorial e trazendo para nós escritoras e escritores da Nuestra América.”

E pensando nisso, reunimos aqui a indicação de um título de cada país latino-americano para fomentar a leitura de obras latinas. Bora? Vem com a gente! 😃

Argentina: Garotas Mortas, por Selva Almada

Um dos grandes nomes da literatura argentina contemporânea, Selva Almada investiga três casos de feminicídio em seu país na década de 1980. E mostra que a situação não mudou com o tempo. Três assassinatos entre centenas que não são suficientes para estampar as manchetes dos jornais ou mobilizar a cobertura dos canais de TV. Três casos cujas notícias chegam desordenadas: uma rádio anuncia, um pequeno jornal provinciano dá algum destaque, alguém se lembra dos ocorridos em uma conversa… Três crimes “menores” enquanto a Argentina celebrava o retorno da democracia. Três mortes sem culpado. Com o tempo, essas histórias se convertem em uma obsessão particular da autora, o que a leva a uma investigação bastante atípica. A prosa cristalina de Selva Almada mostra como as violências diárias contra meninas e mulheres acabam fazendo parte de algo considerado “normal”.

Bolívia: Terra fresca da sua tumba, por Giovanna Rivero

O ruído da terra estrangeira, o fantástico e o macabro emaranhados no cotidiano, a crueldade de que só a família é capaz. Tramas de vingança e reconciliação circundam o abismo da morte e do trauma, em uma prosa intrépida e sensível, que extrai do dia a dia uma beleza brutal. Os seis contos longos que compõem a estreia em livro no Brasil da boliviana Giovanna Rivero são um chamado a outras vidas possíveis; expurgo e oração.

Brasil: Torto Arado, por Itamar Vieira Junior

Nas profundezas do sertão baiano, as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. Ocorre então um acidente. E para sempre suas vidas estarão ligadas ― a ponto de uma precisar ser a voz da outra. Numa trama conduzida com maestria e com uma prosa melodiosa, o romance conta uma história de vida e morte, de combate e redenção.

Chile: Não aceite caramelos de estranhos, por Andrea Jeftanovic

Contos ousados, onze socos no estômago, em que o ambiente familiar e as relações íntimas são palco de frustrações, temores e perturbações; de amores profundos e grandes esperanças. O primeiro conto, “Árvore genealógica”, é um desafio ao leitor pela forma de afeto desvirtuada, uma reação perturbadora aos fatos, radicalizada e eivada de incompreensão. No entanto, o tom da coletânea é definido no conto que lhe dá título, “Não aceite caramelos de estranhos” — a dor de uma ausência que nada pode preencher, a relação com uma realidade absolutamente incompreensível e inaceitável. Jeftanovic confere a variadas personagens em situações extremas sua voz terna e inconvenientemente franca.

Colômbia: Os cristais do sal, por Cristina Bendek

O retorno a San Andrés faz com que Victoria Baruq questione sua relação com a ilha. A foto perturbadora de seus tataravós e o raro encontro com Maa Josephine, uma idosa raizal que ela conhece em frente à Primeira Igreja Batista, são alguns dos gatilhos que começam a revelar detalhes de suas origens. Seu passado não só a coloca em contato com a história desconhecida da ilha, mas também com os movimentos sociais que, entre o zouk e o calipso, celebram a identidade raizal, fazem reduções do pensamento, resistem.

Costa Rica: A folha de ar, por Joaquín Gutiérrez

Esta comovente história sobre um ser errante é uma das obras mais difundidas do famoso autor costarriquenho. A folha de ar narra o retorno de um costarriquenho à sua pátria, a busca pela mulher amada e o fracasso que essa busca implica. Alfonso não consegue frear a busca por Teresa, embora a loucura que o governa lhe permita continuar a impossível busca. A discordância que se manifesta com cada um dos que cruzam seu caminho nada mais é do que o prólogo do que deve significar seu retorno à Costa Rica. Como sua última edição no Brasil tem algum tempo, é possível encontrar apenas exemplares usados à venda.

Cuba: Cartas para a minha mãe, por Teresa Cárdenas

Uma menina escreve cartas para sua mãe morta. Através delas ficamos sabendo que teve que ir morar com a tia e as primas, que não gostam dela. Não se cansam de lembrar que deveria fazer um esforço para disfarçar sua cor e ficar mais parecida com uma pessoa branca. Sua avó está sempre desgostosa, com ela e com a vida em geral. Mas a autora das cartas começa lentamente a descobrir um mundo além de seus problemas familiares. Este é um romance emocionante sobre perdas irreparáveis e sobre o poder restaurador do amor e do auto respeito. Ambientada em Cuba, a narrativa desafia nossas crenças sobre essa ilha que, afinal, conhecemos tão pouco.

Equador: Rinha de galos, por María Fernanda Ampuero

Em Rinha de galos, seu primeiro livro de contos, a equatoriana María Fernanda Ampuero seleciona um texto do poeta argentino Fabián Casas como epígrafe para, de alguma maneira, antecipar o que virá nas páginas seguintes: “Tudo que apodrece forma uma família”. Este é um livro sobre os laços e sua brutalidade quando se rompem, quando são atravessados pela perversão; um livro sobre como o espaço familiar, que deveria ser de proteção e segurança, é, em muitos casos, o lugar no qual se concretizam as violências mais indescritíveis, aquelas que deixam cicatrizes permanentes.

El Salvador: Asco, por Horácio Castellanos Moya

Dois amigos de infância se encontram num bar em San Salvador, América Central. O primeiro deles acaba de retornar à cidade, para o velório da mãe, após anos de autoexílio. E diante de seu interlocutor silencioso dispara toda a cólera e indignação com o lugar onde nasceu, reveladas por meio de um monólogo de crueza perturbadora. Foi com essa novela singular que o hondurenho Horácio Castellanos Moya conquistou reconhecimento internacional, e é com ela que enfim estreia no Brasil.

Guatemala: O Senhor Presidente, por Miguel Ángel Asturiasa

Seria apenas uma história de amor, com elementos típicos como paixão à primeira vista, inocência e inevitabilidade, redenção pelo amor, obstáculos no caminho. Contudo, nem o mais íntimo dos sentimentos escapa ao poder onipresente e desmedido do Presidente. Seria uma narrativa tradicional, não fossem a polifonia e as personagens inusitadas, a violência e a beleza grotesca das imagens, o ritmo frenético, a técnica literária de vanguarda associada à temática política. O Senhor Presidente é o desnudamento de um autoritarismo cruel que perpassa níveis e hábitos sociais, e que assumiu diversas faces na América Latina em diferentes momentos. Pelo que nos diz do passado e do presente, e pelas muitas reflexões que convida o leitor a fazer, uma obra magistral.

Haiti: Adeus, Haiti, por Edwidge Danticat

Vencedor do National Book Award e eleito um dos melhores livros do ano pelo New York Times, Adeus, Haiti é o emocionante relato das memórias da escritora Edwidge Danticat. Em 2004, dois acontecimentos a fazem relembrar sua vida no país natal. Ao mesmo tempo que comemora a gravidez da primeira filha, Danticat descobre que seu pai está com uma doença terminal. Ela então relembra a vida no Haiti, a ida de seus pais para os Estados Unidos quando ela tinha apenas quatro anos, a infância vivida junto aos tios em Porto Príncipe e as alegrias e tragédias que se abateram sobre a família.

Honduras: A Ovelha Negra e Outras Fábulas, por Augusto Monterroso

Augusto Monterroso nasceu em Honduras, foi criado na Guatemala, mas escolheu o México para viver. Conhecido pela inventividade de seus escritos em forma breve, em A ovelha negra e outras fábulas o autor reinventa o consagrado gênero, subvertendo completamente sua forma clássica. Cheias de ironia e de uma simplicidade enganosa, as fábulas de Monterroso transitam pelo universo adulto das relações humanas, da literatura e da política.

México: A história dos meus dentes, por Valeria Luiselli

Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como “Estrada”, tem uma missão: quer trocar todos os seus dentes. Ele acredita que todas as suas habilidades podem ajudar nessa empreitada, por exemplo, imitar Janis Joplin e interpretar biscoitos chineses da sorte. Além disso, ele é o melhor leiloeiro do mundo – mesmo que ninguém saiba, já que ele é muito discreto. Enquanto estuda o ofício de leiloeiro com o grande Mestre Oklahoma, Estrada viaja o mundo aperfeiçoando seu talento e nos mostra como o valor da arte e a nossa própria identidade podem ser construídos. Escrito com maestria e inventividade, A história dos meus dentes é um rompante espirituoso e elegante sobre nossa relação com o mundo e suas histórias.

Nicarágua: O país sob minha pele, por Gioconda Belli

No livro, Gioconda relembra sua criação em uma família rica. Revela como mergulhou na guerrilha sandinista, que derrubou a ditadura de Anastácio Somoza, e rememora a reconstrução do país após a vitória das tropas revolucionárias. Em seu livro, Gioconda Belli fala dos anos difíceis que vivenciou. Um período negro da história nicaragüense, onde viu morrer amigos queridos e o homem que amava. Viu a revolução, pela qual esteve disposta a dar tudo, se transformar em algo muito diferente, perdendo a pureza e a nobreza que a tornava tão sedutora. Uma época considerada pela autora como anos de generosidade e heroísmo extraordinário. O País Sob Minha Pele mostra como se pode ser feliz embarcando em sonhos impossíveis e um mundo mais justo e igualitário.

Panamá: A vontade e a fortuna, por Carlos Fuentes

Carlos Fuentes nasceu na cidade do Panamá, em 1928, mas passou a infância em diversos países, entre eles: Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Estados Unidos. Aos 16 anos foi para o México, onde iniciou seu trabalho como jornalista. O autor disseca, em ‘A vontade e a fortuna’, as relações de poder no México. Misto de trama surrealista e alegoria histórica e atemporal, o romance tem na cabeça de Josué Nadal, cortada e lançada a uma praia do Pacífico, o protagonista – divagando as causas de seu trágico fim, contando e recordando as peripécias de sua breve história – uma busca pelo amor e a imortalidade deste sentimento.

Peru: A Hora Azul, por Alonso Cueto

Baseado em episódios reais este thriller comovente desenvolve-se num ritmo de alto suspense. Adrián Ormache um advogado de 42 anos, mora em Lima com uma mulher perfeita e duas filhas encantadoras. Tem uma vida confortável e previsível até que descobre as atrocidades cometidas por seu pai oficial da Marinha durante o conflito ocorrido nos anos 80 entre os guerrilheiros do Sendero Luminoso e o exército peruano. Entre outros crimes, o comandante Ormache sequestrou e estuprou uma jovem índia, Miriam. Sem pensar nas consequências deixa-se apaixonar por ela e em vez de matá-la a tranca na cabana dele. Agora que a mãe de Adrián morreu ele tem que decidir se continuará a pagar para manter o segredo – ou se arriscará a vida para conhecer o passado do pai.

Paraguai: O Inverno de Gunter, por Juan Manuel Marcos

O inverno de Gunter – vencedor do Prêmio Livro do Ano em 1987, traduzido para mais de 14 idiomas e considerado o romance paraguaio mais importante das últimas quatro décadas. Esta obra fascinante e de refinado humor é simultaneamente um romance policial, ode amorosa, reflexão sobre as raízes míticas tupi-guarani. Surpreendendo pela habilidade no uso de vibrantes técnicas narrativas inéditas no Paraguai da época, o romance de Juan Manuel marcos é um comovente testemunho do idealismo e da luta da juventude e dos intelectuais contra as ditaduras dos anos 1980, na qual não faltam referências aos laços culturais entre Paraguai e Brasil.

República Dominicana: A fantástica vida breve de Oscar Wao, por Junot Díaz

A vida nunca foi fácil para Oscar, um nerd dócil, porém desastrosamente obeso, de origem dominicana, que vive com a mãe e a irmã em um gueto em Nova Jersey. Humilhado pelos colegas e isolado do mundo, ele passa as horas na companhia de livros e filmes de ficção científica e fantasia, sonhando em se tornar o J.R.R. Tolkien latino e, sobretudo, em encontrar um grande amor. No entanto, é possível que nunca realize seus desejos, em virtude de um fukú ― uma antiga maldição que assola a família de Oscar há gerações, condenando seus parentes a prisões, torturas, acidentes trágicos e, acima de tudo, a paixões malfadadas.

Uruguai: Deixa comigo, por Mario Levrero

Um escritor em apuros financeiros encarna um detetive atrapalhado ao receber uma missão pitoresca: viajar ao interior do Uruguai à procura de um certo Juan Pérez, que enviara dias antes, sem endereço de remetente, o manuscrito de um romance genial a uma editora. Deixa comigo vem reparar a imperdoável ausência do uruguaio Mario Levrero nas livrarias brasileiras.

Venezuela: Noite em Caracas, por Karina Sainz Borgo

Violência, anarquia e desintegração ditam o ritmo em Caracas. Nesse cenário desolador, Adelaida Falcón tem a vida destroçada pela morte da mãe. Logo depois do enterro, ela se depara com sua casa ocupada por um grupo de mulheres. Ao procurar ajuda, tenta falar com a vizinha, Aurora Peralta, conhecida como “a filha da espanhola”, mas a encontra morta. Em cima da mesa da sala, Adelaida vê documentos que podem mudar sua vida, dando início a uma jornada pela própria sobrevivência.

Bônus! Tem interesse em conhecer mais da literatura latino-americana? Fique ligada/o nos links abaixo:

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• Algumas editoras que valorizam a literatura latino-americana:
Pinard Livros
Editora Mundaréu
Editora Moinhos
Relicário Edições
Editora Instante
Editora Incompleta

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Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ