“Independência ou morte”?

outros processos de independência de países colonizados

No dia 7 de setembro de 1822 foi proclamada a independência do Brasil do então Reino de Portugal. Este dia ficou marcado pelo episódio do “Grito do Ipiranga”.
Segundo a História, neste dia, às margens do Rio Ipiranga, hoje atual cidade de São Paulo, o Príncipe Regente Dom Pedro ordenou aos oficiais que o acompanhavam que jogassem fora os símbolos portugueses que levavam nos uniformes e gritou “Independência ou Morte” e a partir desse momento, simbolicamente, o Brasil não era mais uma colônia de Portugal.
Após a Independência, o Brasil continuou a ser uma monarquia, porém, agora, governada pelo filho do seu ex-rei, o Imperador Dom Pedro I.

A narrativa da independência brasileira nos leva a pensar sobre como este processo histórico foi relativizado como uma operação estritamente pacífica de ruptura com a metrópole e tão destoante de outros processos de independência de países colonizados.

Assim, nesta data, propomos um breve mergulho nos processos de independência de quatro países de origem dos nossos professores e aos quais também foram impostos sistemas coloniais. Mesmo após suas independências esses países seguiram sofrendo a influência de resquícios de tal sistema de exploração material e psicológica.

Benim

O território onde o Benin se situa hoje era ocupado no período pré-colonial por pequenas monarquias tribais, das quais a mais poderosa foi a do reinado Fon de Daomé.
A partir do século XVII, os portugueses estabelecem entrepostos no litoral, conhecido então como Costa dos Escravos. Os habitantes foram capturados e vendidos como escravizados no Brasil e no Caribe. Por isso, o Benim guarda profundos laços com o Brasil. A longo prazo, essa população introduziu elementos na cultura brasileira, como a feijoada e o uso do óleo de palma, o famoso azeite de dendê, que fazem parte da culinária beninense, ou o vodu, prática religiosa da maioria da população do Benim, que em certos traços se assemelha ao candomblé.

Depois, no século XIX, a França, em campanha para abolir o comércio de escravos, entra em guerra com reinos locais. Em 1892, o reinado Fon é subjugado e o país torna-se protetorado francês, com o nome de Daomé. Em 1894, o Daomé foi integrado à África Ocidental Francesa (AOF). Suas fronteiras foram fixadas com a participação dos países que colonizaram seus territórios vizinhos, Grã-Bretanha, estabelecida na Nigéria, e a Alemanha, presente no Togo. O território atual é o resultado artificial da expansão colonial francesa que uniu os antigos reinos do povo Fon com diversos povos do interior, formando a colônia de Dahomey (Daomé).

Desde a criação da AOF e sobretudo no início do século XX, a elite beninense já falava e tentava articular um processo de independência. Há registros de jornais locais abordando sobre um Estado de Daomé em 1917 e 1920.
Durante o período entre guerras, a educação de missões religiosas externas florescia, e o território de Daomé foi um dos principais centros políticos e intelectuais da AOF. Alguns partidos políticos foram fundados nesta época e também surgiu uma imprensa contra o sistema colonial. Aliado à França durante a Segunda Guerra Mundial, o Daomé tornou-se, em 1946, um território ultramarino francês, e então, em 4 de dezembro de 1958, um estado autônomo dentro da Comunidade Francesa.

Finalmente, no dia 1º de agosto de 1960, Daomé proclamou a sua independência da França, na mesma época da independência de vários outros territórios africanos colonizados. Só em 1975 o país adotou o nome de República Popular do Benim, pelo fato de ser banhado, ao sul, pela Baía de Benim.

Haiti

O Haiti é um caso muito emblemático de processo de independência. A revolução que deu origem à independência do Haiti se configurou como o primeiro processo de independência de sucesso realizado por um território colonizado de maioria negra, abalando a ordem colonialista e inspirando muitas outras nações a conseguiram sua autodeterminação. Uma história de resistência que perdura até hoje para o povo haitiano.

Os historiadores relatam a data de 18 novembro de 1803 como a data da batalha de Vertière a qual marcou o fim da sociedade colonialista, segregacionista e escravagista da antiga colônia francesa até então denominada Santo Domingo. Esta batalha sinaliza uma rebelião, uma revolta a esse sistema e toda a sua integralidade. Ela é anunciadora da independência do Haiti, que é declarada em 1º de janeiro de 1804.
Esta independência foi considerada como uma ameaça para mundo colonialista na medida que isso serviu como exemplo para os outros povos colonizados. Pode-se citar como exemplo a Venezuela, com Simon Bolívar, que a exemplo do Haiti realizou a luta contra os colonizadores para a libertação do país.

A revolução haitiana ficou marcada por ser a única a ser completa (antiescravagista e antisegregacionista). A independência dos Estados Unidos (1776), a primeira da América, que foi realizada antes da haitiana, não erradicou a segregação racial. Nenhuma outra revolução teve uma erradicação radical do sistema como foi a do Haiti.

Para alcançar essa luta, o general Dessalines teve que dar continuidade ao trabalho que foi iniciado por Toussaint Louverture, o grande estrategista haitiano que foi preso e levado à França pelos colonizadores. Assim, em primeiro de janeiro de 1804, Dessalines foi proclamado o imperador da nova nação haitiana. A capacidade dos novos generais e oficiais de dirigir um país tão frágil é questionada. A posição da comunidade internacional, quase em totalidade adepta da teoria do mundo dito civilizado naquela época, permanece hostil e indiferente a este grande passo do Haiti.

Um ponto interessante na história da independência do Haiti é o comportamento da França, que em 1825 exigiu que o governo haitiano pagasse um valor bem alto (aproximadamente 90 milhões de francos, ou seja, cerca de 17 bilhões de euros) como “multa” pela perda da sua colônia. O país foi isolado da comunidade internacional; legalmente, a nova nação não podia estabelecer comércio com outros país. Em princípio, a Rússia foi o único país a aceitar a independência do país.

Muitos se perguntam porque o Haiti está nessa situação se foi a primeira nação negra livre no mundo e o segundo país independente na América. Muitas tentativas de respostas podem ser evocadas; Mas é importante entender que a sociedade haitiana é baseada na sua história e notar que a independência deixa um elemento positivo em cada haitiano: o orgulho de ser a primeira nação negra a ser independente na história colonial e um legado de coragem enorme.

Síria (via Revista Intertelas)

O território da Síria é localizado em uma região estratégica entre Ásia, África e Europa. Habitado por populações multiétnicas há tantos séculos, já possuiu e foi subjugada a diferentes configurações políticas. Com cerca de 185 mil km quadrados e uma população de aproximadamente 22 milhões de habitantes, a República Árabe da Síria é apenas uma parte do território da Síria histórica, que corresponde, nos dias de hoje, a territórios do Líbano, Jordânia, Palestina e porções do Iraque e da Turquia.

A Síria Histórica foi habitada na Antiguidade pelos amoritas, fenícios-cananeus, arameus, hititas, entre outros, e foi dominada pelos assírios, babilônios, egípcios, hititas, grego-macedônios e romanos.

Também foi sede do primeiro Império Árabe-Muçulmano, o Omíada (660-750), que se estendia do Oceano Atlântico à Ásia Central (da Península Ibérica à Índia). Com o colapso dos omíadas, foi província de outros impérios até cair sob o domínio do Império Otomano, entre 1516 e 1918.

Durante a emergência do imperialismo europeu capitalista liberal, no século XIX, os territórios árabes do Império Otomano na Ásia e na África serviram como passagem obrigatória entre a Europa, a Índia e a China. Assim, a Síria histórica, sob o domínio otomano, converteu-se numa zona tampão nas disputas imperialistas entre britânicos, russos e franceses. Estes entraram em acordo (o Sykes-Picot-Sazanov), no final da I Guerra Mundial (1914-18), para dividir a região em “zonas de influência” a cada potência, sem levar em consideração a convivência multimilenar entrelaçada entre si de inúmeras etnias e comunidades religiosas. Dessa forma, os britânicos passaram a controlar a Palestina, a Transjordânia e a Mesopotâmia, enquanto os franceses tomaram o controle sobre a Síria, agora, amputada de seu litoral meridional palestino. Os russos, por sua vez, não tiveram tempo para tomar qualquer território, tragados que foram pela Revolução Socialista de 1917.

O mandato francês sobre a Síria não respeitou a proclamação do Reino Árabe da Síria pelo Congresso Nacional Árabe- Sírio de 1920, sob a monarquia constitucional e parlamentar do rei Faysal al-Hachemi. Neste Congresso, também foi estabelecido a fundação de uma universidade e o estabelecimento de eleições livres e regulares. Isto é, o Reino Árabe-Sírio nasceu sob um regime democrático.

Para combater a democracia síria e o nacionalismo árabe que florescia na época, a França dividiu o território sírio entre as comunidades confessionais para implodir qualquer identidade nacional e até mesmo de classe, acirrando o sectarismo religioso. Assim, surgiu o Grande Líbano, em 1920, o Estado Alauíta, o Estado do Monte Druzo, o Estado de Alepo (“sunita”) e o Estado de Damasco (“sunita”). Esta partilha resultou em revoltas fortemente reprimidas pelos franceses. Em 1924, a Síria voltaria a ser unificada, mas sem o Líbano, que se tornaria independente duas décadas depois.

A independência da Síria de fato só ocorreria em 1946, após um bombardeio aéreo francês sobre Damasco, quando se retiraram sob pressão britânica, assassinando centenas de civis.

Venezuela

A Venezuela foi a primeira colônia latino-americana a conseguir libertar-se do domínio espanhol e a história de sua independência também serviu como um incentivo para todas as outras colônias rebelarem-se e lutarem por sua liberdade – inclusive o Brasil.

A independência na Venezuela é proclamada por Simon Bolívar e Francisco Miranda em 1811, porém, o que ocorre é que este processo se transforma em um conflito com a Coroa Espanhola que perdura até 1821.

As aspirações e movimentos para chegar à proclamação da independência começaram anos antes, na década de 1780, quando Francisco Miranda tentava articular meios para se chegar à liberdade da metrópole na América Espanhola. Miranda entrou em contato com ideais liberais que floresciam na Europa e nos Estados Unidos, inclusive tendo participado de batalhas pela independência estadunidense.

Em 1810 Miranda e Bolívar se unem e instauram a chamada Junta Patriótica, em Caracas, que deflagrou a independência no ano seguinte. A partir de 1812, seguiu-se uma série de batalhas entre os independentistas e os espanhóis. Em 1817, os independentistas conquistam Guayana e Margarita. Em 24 de junho de 1821, Bolívar derrota Miguel de La Torre na Batalha de Carabobo, consolidando finalmente a independência da Venezuela.

É importante mencionar também que Bolívar manteve posições antiescravagistas ao clamar que a população escravizada participasse da luta em prol da independência e também incentivando pela primeira vez uma tentativa de fim da escravidão na Venezuela, o que, de fato, só ocorreu em 1854.

Um fato interessante é que “El Libertador”, como ficou conhecido Simon Bolívar, acreditava numa nação única de ex-colônias espanholas, ele incentivava a união desses territórios e por isso participou ativamente do processo de independência de várias outras nações latino-americanas.

Ainda que os processos de independência política dos países subjugados a sistemas coloniais tenham sido de extrema importância para a construção das suas liberdades, identidades e para o desenvolvimento de tais populações, é interessante seguir se questionando o quanto somos realmente independentes social, cultural e economicamente hoje dos países hegemônicos que se desenvolveram ao custo da exploração e submissão de outros – nós, do Sul Global – e o quanto ainda continuamos reféns de lógicas e práticas coloniais ou reproduzindo estas dentro dos nossos territórios.

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ