Decolonizar o prato:

breves pensamentos sobre alimentação decolonizada

Ao longo deste mês de outubro, falamos sobre alguns alimentos que têm bastante importância para diferentes culturas do Sul global, como a batata, a banana, o coco e o cacau. Além de alimentos básicos e saudáveis, eles também têm em comum certa relação de apropriação gastronômica por parte de países hegemônicos e até certa desvalorização em alguns contextos.

Para fechar a sessão temática, trazemos algumas breves reflexões sobre alimentação atravessada por um viés decolonial.

Decolonizando o prato:

Farofa de banana-da-terra. Foto: Shutterstock

Dar protagonismo a alimentos naturais do território em que habitamos, valorizar as técnicas, os saberes e os fazeres dos povos originários e de povos historicamente subalternizados como os afrodescendentes, os quilombolas, os ribeirinhos e os caiçaras é decolonizar a alimentação.

Descolonizar, porém, não quer dizer simplesmente excluir os alimentos e as práticas que não são originárias do Brasil/Pindorama. Mas entender o que é nosso, o que se tornou nosso e o que não é, e a partir disso, fazer escolhas.

É importante pensar que a alimentação também funcionou e ainda funciona, em certa medida, como mais uma ferramenta de apagamento histórico. Quando se diz que a culinária brasileira é muito “miscigenada” deve-se admitir que na prática o peso das culturas foi bem diferente.

Os colonizadores europeus trouxeram muito do que a sociedade em geral valoriza na mesa: o trigo e seus derivados, as carnes e os tipos de corte, os laticínios, as sobremesas… Os ingredientes que remetem às culturas indígenas e afrobrasileiras, como o milho, a mandioca, o coco, o feijão fradinho, não costumam ser exaltados. Sabendo disso, como reparação histórica, é o momento de valorizar os ingredientes e receitas não-europeias e não-estadunidenses.

A colonização instituiu não apenas o que consumir mas também como comer. A quantidade, os horários e a leveza e a robustez das refeições também são elementos sociais e culturais. Há populações que têm o costume de comer mais ou menos vezes por dia, que consomem comidas mais pesadas ou leves – e aí também entra o contexto externo/climático – ou que tem momentos diferentes do dia para comer. Pensando numa perspectiva literal demais, até os próprios utensílios utilizados para a alimentação foram atravessados pela lógica colonial – ou esquecemos que não só existem os pratos para comer, como também existem outros recipientes como tábuas, tigelas, cumbucas ou as próprias mãos.

A pluralidade de alimentos e a não monocultura, além do entendimento de que não devemos nos separar, muito menos nos sobrepor à natureza também fazem parte do exercício de decolonização. Somos parte dela e como seres pensantes temos responsabilidade sobre o que fazemos parte.

Geralmente pensa-se em colonização como qualquer coisa que vem de fora, mas esquecemos que a colonização é, sobretudo, uma relação de poder e não apenas uma conexão com o hegemônico. 

E o que fazer?

Podemos começar questionando o que é dado como convencional. Por que você come o que está no seu prato e o que está por trás dessa comida? Se mobilizar, conversar com outras pessoas sobre o assunto, se informar sobre o que está acontecendo, se reunir em coletivos, associações, comprar comida de pequenos agricultores, lutar para que os grandes empresários e monopólios passem a pagar mais impostos e inaugurar práticas menos agressivas.

Investigar e estudar sobre a comida em potencial que está ao nosso redor, os alimentos típicos e as plantas alimentícias não convencionais (PANCS). É surpreendente a quantidade de comida descoberta ao nosso redor que foi apagada por não refletir sobre as políticas que cruzam a alimentação.

E também somar esforços para um resgate culinário ancestral juntamente com uma releitura do mesmo, ressignificando o original no tempo presente.

Perceber e tentar mudar a nossa relação com os alimentos, conscientes de que sofremos um processo histórico cultural influenciador e promotor da desigualdade, abre possibilidades para uma busca por independência, igualdade, soberania e, consequentemente, segurança alimentar para todas as populações.

Fontes:

Descolonizar o prato. Comida saudável pra todos. Disponível em: <http://comidasaudavelpratodos.com.br/entrevistas/descolonizar-o-prato/> . Acesso em: 29 de outubro de 2021.

Comida saudável pra todos: comer bem e descolonizar o paladar. 360 meridianos. Disponível em: <https://www.360meridianos.com/2021/01/comida-saudavel-pra-todos.html; . Acesso em: 29 de outubro de 2021.

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Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ