28/04: DIA INTERNACIONAL DA EDUCAÇÃO

5 educadoras do Sul global

No dia 28 de abril, celebramos o Dia Internacional da Educação. E como para nós, do Abraço, educação é propósito de vida, resolvemos aproveitar a ocasião para compartilhar com vocês um pouco da história de cinco educadoras do Sul global que nos ajudam a compor os saberes e os fazeres da instituição. 

Ao sinalizar que as educadoras são do Sul global, identificamos, é claro, seus territórios de nascimento, mas evidenciamos, principalmente, a perspectiva através da qual elas entendem a tarefa educativa: uma ação política, antirracista, feminista, decolonial e afetiva. 

Buscamos evidenciar suas perspectivas através de suas biografias e também através de trechos que nos tocam particularmente. O convite para (re)conhecê-las, no entanto, não precisa se limitar ao recorte proposto. Você pode se aprofundar conhecendo o contexto de onde os trechos foram retirados ou, se preferir, buscando autonomamente pela internet. Aceita o nosso convite?

Gina Vieira (Brasil)

Bio: Mulher negra, Gina Vieira é brasileira, nascida em Brasília. É idealizadora, autora e executora do “Projeto Mulheres Inspiradoras”, desenvolvido, num primeiro momento, junto aos seus estudantes, com o objetivo de ampliar o leque de referenciais femininos dos adolescentes, que eram pautados, principalmente, pelos estereótipos difundidos pela grande mídia. O projeto se expandiu para outras escolas em Brasília, impactando a formação de mais de 3 mil estudantes da rede pública. Recentemente, o projeto atravessou o Oceano Atlântico, alcançando paragens na província de Niassa, Moçambique, na África. Gina tem como prática a defesa da educação para a igualdade étnico-racial e de gênero. Para ela, a educação é um instrumento de fortalecimento da democracia e para a transformação social.

  • Formação: 
    • Graduada em Letras – Português e suas respectivas literaturas pela Universidade Católica de Brasília (UCB)
    • Professora de português na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) desde 1991
    • Pós-graduação em Educação à Distância (2009), Desenvolvimento Humano e Inclusão Escolar (2011), Letramentos e Práticas Interdisciplinares nos Anos Finais (2015) pela Universidade de Brasília (UnB) 
“Precisamos lembrar que a base histórica da nossa educação é a base de uma educação autoritária, colonial, instrucionista e bancária, que supõe que o professor vai entrar em sala de aula e encontrar quem não sabe. Ele vai ensinar e quem não sabe será reduzido à espectador. Esse paradigma educacional está em desconstrução. Na origem da nossa educação, há a ideia de que nós somos apenas um cérebro, há um desprezo pela dimensão emocional afetiva. […] O papel mais importante do professor não é entregar um conteúdo, o conteúdo já está gravado. O papel mais importante do professor é criar situações de aprendizagem adequadas ao perfil de cada estudante e para isso eu tenho que conhecer aquele estudante, conhecer sua história e me conectar afetivamente.” em entrevista ao Laboratório Inteligência de Vida

bell hooks (EUA – migrante)

Bio: Batizada com o nome de Gloria Jean Watkins, nasceu em Hopkinsville, ao sul dos EUA em 25 de setembro de 1952. Foi uma professora, pensadora, escritora e ativista negra norte-americana de grande importância, principalmente para o movimento antirracista e feminista. Com uma trajetória acadêmica consistente, bell escreveu e publicou mais de 30 livros, em que apresenta a sua visão de mundo empática e de resistência, contribuindo enormemente para um maior pensamento crítico na sociedade, para além de seu país. Os temas que defendia em sua obra são a luta contra o racismo, a importância do amor, a desigualdade social e de gênero e a crítica ao sistema capitalista. É sensível sua sua identificação com o pensamento do intelectual brasileiro Paulo Freire, expresso sobretudo em sua obra Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade.

  • Formação: 
    • Durante a infância estudou em escolas públicas, em um momento onde a educação ainda era segregada racialmente nos Estados Unidos
    • Graduada em Letras pela Universidade de Stanford (1973)
    • Mestra em Letras pela Universidade de Wisconsin-Madison (1976)
    • Doutora em Letras pela Universidade da Califórnia (1981), com pesquisa sobre a escritora Toni Morrison
    • Iniciou sua carreira como educadora em 1976. Ao longo de sua vida, ensinou, entre outros assuntos, estudos étnicos, estudos afro-americanos e estudos sobre as mulheres
Assim como bell hooks, sabemos que não é a língua do opressor que “machuca, mas o que os opressores fazem com ela, como eles a moldam para transformá-la num território que limita e define, como a tornam uma arma capaz de envergonhar, humilhar, colonizar” (HOOKS, 2017).

Wangari Maathai (Quênia)

Bio: Nascida e crescida numa vila rural em Nyieri, no centro da atual República do Quênia, na época sob o domínio britânico, Wangari foi uma professora e uma ativista política do meio ambiente. Devido ao seu trabalho como ambientalista, ela é considerada um dos maiores nomes da conservação ambiental do mundo. Idealizou uma solução bastante prática para enfrentar o problema ambiental: o plantio de muitas árvores. Com esse intuito, fundou o Green Belt Movement, ação em que mulheres trabalhadoras rurais ganhavam um pequeno salário para plantar árvores. O ato é pequeno, mas revolucionário, visto que as árvores preservam a água da chuva, fornecem comida e combustível. Por seu ativismo em defesa do meio ambiente, foi uma forte crítica do governo queniano, em um momento onde se esboçava um grande plano de se destruir um parque na cidade de Nairobi para a construção de um conglomerado de arranha-céus. Por essa razão, foi perseguida, agredida por policiais e considerada traidora da pátria. Sua luta e sua contribuição para o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz fizeram dela a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, no ano de 2004.

  • Formação: 
    • Foi a primeira mulher da África Oriental a se formar como Bacharela em Biologia no Mount St Scholastica College (1964), no estado de Kansas, nos Estados Unidos
    • Mestra em biologia pela Universidade de Pittsburgh (1966), trabalhou como pesquisadora em medicina veterinária na Alemanha, nas cidades de Munique e Giessen
    • Foi a primeira mulher na África Oriental e Central a receber o grau de doutora em anatomia na Universidade de Nairóbi (1971), onde também se tornou professora de anatomia veterinária
“É muito importante que os jovens não tenham medo de se envolver em áreas que não são comuns aos jovens. Envolva-se em atividades locais, envolva-se em iniciativas locais, envolva-se em posições de liderança porque você não pode aprender a menos que esteja envolvido. E se você cometer erros, tudo bem também, porque todos cometemos erros e aprendemos com esses erros. Você ganha confiança ao aprender, fracassa e se eleva novamente.” Tradução livre de trecho no blog Olive on Blonde.

Yuderkys Espinosa Miñoso (República Dominicana)

Bio: Nascida em Santo Domingo, na República Dominicana, Yuderkys Espinosa Miñoso é filósofa, educadora afro-caribenha, escritora, pesquisadora e ativista antirracista, antisexista e de(s)colonial. Yuderkys desenvolve uma filosofia de(s)colonial situada, militante, conectada com a experiência e a prática, que denuncia a pretensão de neutralidade e universalidade do conhecimento. Enquanto pesquisadora e ativista está comprometida com o processo de revisão permanente dos feminismos (identificados no plural): seu histórico, fundamentos, condições de possibilidade. Seu trabalho tem como pano de fundo uma denúncia ao apagamento das corporalidades, dos saberes e das práticas associados a epistemes desqualificadas historicamente, por opressões de raça, classe, sexualidade, que constituem-se como pilares do projeto colonialista. Ela defende que, no interior desse projeto colonial, genocida e epistemicida da modernidade, o feminismo na América Latina, para ser coerente, precisa comprometer-se com a sua descolonização.

  • Formação: 
    •  Graduada em psicologia pelo Instituto Tecnológico de Santo Domingo (República Dominicana)
    • Mestra em ciências sociais na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (Argentina)
    • Membra fundadora do Grupo Latinoamericano de Estudio, Formación y Acción Feminista (GLEFAS)

“Debater, confrontar, educar, sempre que busca transformar o mundo para fazer dele algo melhor, está impulsionado pelo amor.”

Hanan Al Hroub (Palestina)

Bio: Nascida na cidade de Belém, na Palestina, Hanan é professora dos primeiros anos do ensino fundamental de um campo de refugiados na Palestina, onde ela mesma cresceu. Tendo uma infância privada de bens e de direitos aos quais grande parte das crianças costumam ter, precisou se acostumar a vivenciar na escola um clima permanente de tensão. Como educadora, interessa-se pelo ensino de crianças que tiveram experiências traumáticas. Esse interesse é fruto de sua própria vivência: seus dois filhos tinham menos de dez anos quando foram atacados junto com o pai por tiros no caminho de volta da escola. O pai conseguiu proteger as crianças, mas ele foi baleado e ficou em estado grave. Depois do episódio, ela observou que seus filhos tornaram-se muito reativos, tensos e passaram a ter muita dificuldade em assimilar os conteúdos da escola.

Por meio de jogos e atividades lúdicas, conseguiu aos poucos quebrar o gelo que envolvia os filhos, que estavam em tamanho estado de letargia que eram incapazes de brincar. Em seu trabalho na escola no campo de refugiados, ela usa brincadeiras e jogos lúdicos, que pedem colaboração, para ajudar as crianças a desenvolverem respeito mútuo, confiança e relações de afeto. A metodologia utilizada da ênfase na leitura e no desenvolvimento da capacidade de contar histórias. Por meio delas, as crianças podem dramatizar situações que as afligem, criando finais felizes ao mesmo tempo em que conseguem dar nome a sentimentos reais. Por esse trabalho, Hanan Al Hroub ganhou a segunda edição do Global Teacher Prize, no ano de 2016.

Formação:

  • Fez os estudos primários e secundários numa escola da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA)
  • Graduada em Pedagogia pela Universidade Aberta da Palestina
  • Publicou o livro “We play and We learn”, no qual fala sobre seu método de ensino, em 2015
“Algumas crianças podem não vivenciar diretamente coisas como prisões, assaltos, postos de controle e toda a violência que acontece em nosso país, mas elas veem isso nas telas e nas redes sociais e isso ainda as afeta. Digo a todos os professores, estejam eles na Palestina ou ao redor do mundo: ‘Nosso trabalho é humano, os objetivos são nobres. Devemos ensinar aos nossos filhos que nossa única arma é o conhecimento e a educação’.” tradução livre de trecho publicado em reportagem da CNN.

Educar para emancipar é uma ação de natureza inclusiva, que visa a transformação coletiva do sistema-mundo em que vivemos. A tarefa de direcionar o olhar para enxergar o mundo através das lentes do Sul global, atentando-se às suas necessidades e potencialidades, se faz possível porque contamos com as contribuições e o legado de educadoras como Gina Ribeiro, bell hooks, Wangari Maathai, Yuderkys Espinosa Miñoso, Hanan Al Hroub. 

Retomamos e alargamos, então, o convite que fizemos na introdução: qual – ou quais – educadoras te inspiram a ir além? Quais ideias você reconhece na tarefa educativa do Abraço Cultural? Em que medida você, aprendiz, tem participação ativa no desenvolvimento de uma sala de aula mais inclusiva, afetiva e diversa? Que outros educadores, ou educadoras, você gostaria de colocar nessa constelação?

Celebre com a gente o Dia Internacional da Educação, compartilhando esse artigo e as suas percepções nas suas redes sociais.

Carolina Vieira, Liderança e coordenadora pedagógica do Abraço RJ