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#AbraçoIndica: Destaques da Flip 2019

Esse ano o 17ª Festa Literária Internacional de Paraty acontece entre os dias 10 e 14 de julho. O evento deste ano vai homenagear o escritor brasileiro Euclides da Cunha reunindo vários autores e profissionais da literatura do Brasil e de fora que têm trabalhos ou relação com temáticas sobre o homenageado. Quer conhecer novos autores brasileiros e estrangeiros que tenham narrativas sobre ou que representem o Sul Global? Dá uma olhada na seleção que fizemos para você:

Ailton Krenak (Vale do Rio Doce – Brasil, 1953) é escritor, roteirista, porta-voz e pensador indígena. Integrante da comunidade dos Krenak, aos dezessete anos migrou com seus parentes para o estado do Paraná. Posteriormente, tornou-se produtor gráfico e jornalista. Dedica-se ao movimento indígena desde muito jovem. Graças a esforços coletivos e do próprio escritor, o número de indivíduos de sua comunidade voltou a subir, depois de sofrer grande queda em números totais até os anos 1980, e fechou o século 20 com 150 indivíduos. É professor doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Indicação: Ideias para adicar o fim do mundo

Neste livro, o líder indígena critica a ideia de humanidade como algo separado da natureza, uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”. Essa premissa estaria na origem do desastre socioambiental de nossa era, o chamado Antropoceno. Daí que a resistência indígena se dê pela não aceitação da ideia de que somos todos iguais. Somente o reconhecimento da diversidade e a recusa da ideia do humano como superior aos demais seres podem ressignificar nossas existências e refrear nossa marcha insensata em direção ao abismo.

“Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover. […] Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história.”

Ayòbámi Adébáyò (Lagos — Nigéria, 1988) é mestre em escrita criativa pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Em sua estreia literária, Fique comigo (Harper Collins, 2018), tece reflexões sobre o patriarcalismo na sociedade nigeriana e desvela o dilema causado por conta da impossibilidade de um casal ter filhos, e a pressão familiar em introduzir mais uma esposa na relação. O romance — publicado em quinze países — recebeu uma série de prêmios e menções e foi classificado como um dos melhores do ano de 2017 nas listas do New York Times, The Economist, The Wall Street Journal e muitos outros. Desde 2009, Adébáyò é editora da revista literária nigeriana Saraba.

Indicação: Fique comigo

Finalista do Baileys Women’s Prize for Fiction, este romance de estreia inesquecível ambientado na Nigéria dá voz a marido e esposa enquanto eles contam a história de seu casamento — e as forças que ameaçam destruí-lo.

Yejide e Akin se apaixonaram na faculdade e logo se casaram. Apesar de muitos terem esperado que Akin tivesse várias esposas, ele e Yejide sempre concordaram que o marido não seria poligâmico. Porém, após quatro anos de casamento — e de se consultar com médicos especialistas em fertilidade e curandeiros, tomar chás estranhos e buscar outras curas improváveis —, Yejide não consegue engravidar. Ela está certa de que ainda há tempo, mas então a família do marido aparece na sua casa com uma jovem moça que eles apresentam como a segunda esposa de Akin. Furiosa, chocada e lívida de ciúmes, Yejide sabe que o único modo de salvar seu casamento é engravidar. O que, enfim, ela consegue — mas a um custo muito maior do que poderia ter imaginado.

Gaël Faye (Bujumbura — Burundi, 1982) é rapper e romancista, filho de mãe ruandesa e pai francês. Em 1995, emigrou para a França. Formou-se e fez mestrado na área de finanças, em Londres. Em 2009, lançou seu primeiro álbum, com o grupo Milk Coffee and Sugar, seguindo depois carreira solo com Pili Pili sur un Croissant au Beurre (2013). Posteriormente, lançou os EPs Rythmes et botanique (2017) e Des fleurs (2018). Seu livro de estreia Meu pequeno país (Rádio Londres, 2019) venceu o prêmio Goncourt des Lycéens. Tratando da guerra entre tutsis e hutus pelo ponto de vista de uma criança, o livro foi traduzido para 29 línguas, vendeu mais de oitocentas mil cópias e está sendo adaptado para o cinema.

Indicação: Meu pequeno país

Burundi, 1992. Gabriel, 10 anos, mora com o pai francês, um empresário, a mãe ruandesa e a irmã caçula, Ana, em um bairro nobre de Bujumbura, onde a maior parte dos moradores são membros de uma comunidade de estrangeiros. Gabriel passa a maior parte do tempo com os amigos e companheiros de aventuras, uma alegre brigada que se ocupa do roubo de mangas dos vizinhos e organiza um comércio clandestino de cigarros Supermatch. Mas essa existência despreocupada é prematura e brutalmente interrompida pela História. Primeiro, Gabriel assiste, impotente, à separação de seus pais; depois, ao início da guerra civil, seguida pela tragédia do genocídio ruandês. Gabriel, que sempre se via apenas como uma criança qualquer, começa a se descobrir mestiço, tútsi, francês. Com uma leveza e uma elegância raras, Gaël Faye consegue evocar os tormentos e as inquietações de um menino preso no mecanismo inexorável da História, tentando lidar com eventos que o obrigam a amadurecer mais cedo do que o previsto. São sensações que o autor conhece pessoalmente, o que torna este primeiro romance — repleto de momentos trágicos e de humor, de luzes e sombras — ainda mais excepcional.

Grada Kilomba (Lisboa, 1968) é escritora, teórica, psicóloga e artista interdisciplinar. É descendente de angolanos, portugueses e são-tomenses, e hoje vive em Berlim. Trabalha linguagens híbridas que unem texto, performance, encenação, instalação, coreografia e vídeo. Formou-se em psicologia clínica e psicanálise, em Lisboa, e trabalhou com sobreviventes das guerras de Angola e Moçambique. Em 2008, recebeu uma bolsa para o doutorado em filosofia na Freie Universität Berlin. Leccionou em universidades internacionais, entre elas a Humboldt Universität Berlin. Seu livro Memórias da Plantação (Cobogó, 2019), publicado originalmente em 2008, é uma compilação de episódios do racismo cotidiano, baseado em conversas com mulheres da diáspora africana. A obra acompanha sua exposição no Brasil, Desobediências Poéticas, na Pinacoteca de São Paulo.

Indicação: Memórias da Plantação

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO é uma compilação de episódios quotidianos de racismo, escritos sob a forma de pequenas histórias psicanalíticas. Das políticas de espaço e exclusão às políticas do corpo e do cabelo, passando pelos insultos raciais, Grada Kilomba desmonta, de modo acutilante, a normalidade do racismo, expondo a violência e o trauma de se ser colocada/o como Outra/o. Publicado originalmente em inglês, em 2008, MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO tornou-se uma importante contribuição para o discurso académico internacional. Obra interdisciplinar, que combina teoria pós-colonial, estudos da branquitude, psicanálise, estudos de género, feminismo negro e narrativa poética, esta é uma reflexão essencial e inovadora para as práticas descoloniais.

Jarid Arraes (Juazeiro do Norte — Ceará, 1991) é escritora, cordelista e poeta cearense. Filha e neta de cordelistas, cresceu em meio às manifestações do Centro de Cultura Popular Mestre Noza, associação de artesãos ainda presente no sertão do Cariri. Mudou-se para São Paulo em 2014, e vive de seus livros e cordéis — mais de sessenta, que produz manualmente. Primeira mulher cordelista da família, começou cedo a questionar a predominância masculina na arte. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (Pólen, 2017) vendeu cinco mil cópias em seis meses. Tamém é autora de Um buraco com meu nome (Ferina/Pólen, 2018). Em 2019, lança seu primeiro livro de contos, Redemoinho em dia quente (Alfaguara).

Indicação: Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a vida das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais.

Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora, a beleza das ilustrações de Gabriela Pires e um prefácio da pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus. Conheça a história de: Antonieta de Barros, Aqualtune, Carolina Maria de Jesus, Dandara dos Palmares, Esperança Garcia, Eva Maria do Bonsucesso, Laudelina de Campos, Luísa Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina dos Reis, Mariana Crioula, Na Agontimé, Tereza de Benguela, Tia Ciata e Zacimba Gaba.

Kalaf Epalanga (Benguela — Angola, 1978) é músico e escritor. Ficou conhecido à frente da banda Buraka Som Sistema (em hiato desde 2016). Hoje, vive entre Lisboa e Berlim, e se define como “agitador cultural”.Foi cofundador do selo musical Enchufada, cronista do jornal português Público e da GQ Portugal, bem como do jornal angolano independente Rede Angola. Reuniu suas crônicas em duas coletâneas: Estórias para meninos de cor (2011) e O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço)(2014). Também os brancos sabem dançar (Todavia, 2018) narra sua trajetória musical, a história do kuduro e da kizomba, e faz um retrato de Benguela e da Lisboa que o recebeu.

Indicação: Também os brancos sabem dançar

Um músico e escritor angolano chega de trem à fronteira entre Suécia e Noruega. Juntamente com sua banda, ele pretende se apresentar em Oslo. Sem um passaporte válido para mostrar, vivendo num limbo entre as cidadanias angolana e portuguesa desde que escapou da guerra em seu país para poder tocar a vida em Lisboa, ele é detido por tentativa de imigração ilegal e conduzido à delegacia para averiguação. Aflito com a precariedade de sua situação e ansioso para conseguir chegar a tempo para o concerto, começa a se perguntar: como explicar que ele é apenas um pacato artista angolano? Esse é o mote do irresistível romance de Kalaf Epalanga, uma viagem colorida e repleta de memórias pessoais, musicais e literárias em torno da África, Europa e até mesmo do Brasil. Narrado com leveza e graça, Também os brancos sabem dançar é a crônica dos muitos encontros propiciados pela música e pelas palavras.

Karina Sainz Borgo (Caracas, Venezuela – 1982) é escritora e jornalista cultural. A autora, que vive na Espanha há mais de uma década, iniciou sua carreira no jornal venezuelano El Nacional. Colabora com publicações na Espanha e na América Latina, como El Mundo, Folha de S.Paulo e o digital Vozpópuli. É autora dos livros de crônicas Tráfico Guaire e Caracas hip-hop, ambos de 2008. Noite em Caracas (Intrínseca, 2019), livro que marca sua estreia na ficção, foi best-seller imediato em terras espanholas, contou com cinco reimpressões em apenas um mês e teve seus direitos vendidos para 22 países.

Indicação: Noite em Caracas

Pode-se perder tudo. Começar de novo. Mas é preciso ser outra pessoa. Violência, anarquia e desintegração ditam o ritmo em Caracas. Nesse cenário desolador, Adelaida Falcón tem a vida destroçada pela morte da mãe. Logo depois do enterro, ela se depara com sua casa ocupada por um grupo de mulheres. Ao procurar ajuda, tenta falar com a vizinha, Aurora Peralta, conhecida como “a filha da espanhola”, mas a encontra morta. Em cima da mesa da sala, Adelaida vê documentos que podem mudar sua vida, dando início a uma jornada pela própria sobrevivência.

Noite em Caracas retrata a saga de uma mulher que enfrenta situações extremas, enquanto precisa aceitar a ausência definitiva da mãe homônima, em um país que também desaparece aos poucos. Ela narra sua história entremeando lembranças de um passado não muito distante, de uma vida simples como filha de professora em um grande centro urbano, com um presente no qual resistir se torna um ato de amor e coragem.

Mariana Enriquez (Buenos Aires, 1973) escreve histórias góticas, de terror e de ficção científica, que se situam em bairros periféricos e lugares ermos da Argentina — semelhantes àqueles onde a própria autora cresceu durante a ditadura (1966-1973). Bajar es lo peor, seu livro de estreia, foi publicado em 1995, quando tinha apenas 22 anos. A obra causou um pequeno alvoroço e transformou Enriquez em sucesso literário. O segundo livro, As coisas que perdemos no fogo (Intrínseca, 2016), consagrou-a de vez como escritora. Este é o mar (Intrínseca, 2019) é seu título mais recente. Enriquez atua também como jornalista, contribuindo com diversos veículos argentinos.

Indicação: Este é o mar

Mariana Enriquez constrói em novo livro um universo sombrio em que lendas do rock encontram fãs fanáticos e seres mitológicos.
Lendas do rock nunca fenecem. E tudo porque entregaram a vida às Luminosas, seres atemporais que se alimentam dos aspectos mais pungentes da devoção humana. Kurt Cobain? Lenda criada por Violeta. Sid Vicious? Gina. Jim Morrison? Marianne. No universo de Este é o mar, se tornar uma verdadeira lenda do rock envolve seres mitológicos femininos e um mundo intenso e sombrio, marcado pelo esquecimento e pelas lembranças que atravessam gerações.

Helena é uma das responsáveis por manter a engrenagem do fanatismo a todo vapor, incitando os jovens fãs humanos a darem tudo de si e a consumirem seu ídolo. No entanto, não quer ser apenas uma abelha operária. Para se tornar uma Luminosa, precisa criar uma nova Lenda. Agora, tendo a morte como aliada, sua missão é eternizar James Evans, o vocalista da banda Fallen — uma árdua tarefa em meio à era da fugacidade dos desejos.

Após a repercussão de As coisas que perdemos no fogo, que consagrou o estilo da autora em unir horror a aspectos do cotidiano, Este é o mar traça na esfera do mitológico os aspectos mais perturbadores e indizíveis da essência humana. Um retrato visceral da adolescência e da nossa sociedade, que reafirma Mariana Enriquez como uma das vozes mais potentes da literatura argentina contemporânea.

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Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço Rio
2019-07-03T13:05:05-03:00