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#AbraçoNoOscar

ROMA

O Roma do título não remete à capital italiana, mas ao bairro de classe média da Cidade do México, onde se passa a história. Na verdade, a escolha do título e a relação com a Itália não parece ser coincidência, afinal há fortes referências ao neorrealismo italiano na produção, desde a opção pela fotografia em preto e branco aos momentos de crítica social.
Este bairro Roma, na Cidade do México, que é palco para a história seria algo parecido com o bairro da Bela Vista em São Paulo, pois nele acontecem manifestações e desfiles. O local retrata onde Cuarón – diretor, escritor e produtor do filme – cresceu com seus três irmãos, um pai ausente e uma mãe que se tornou dona de casa. A trama é baseada na história real da sua infância, com foco na dedicação e vida da sua babá, a Libo, representada no filme pela personagem Cléo, e como ela lida com seus próprios dissabores.

O filme motiva várias reflexões ao nos fazer acompanhar o cotidiano da empregada doméstica e verdadeira babá, de origem indígena e pouca educação. Cléo é um alvo fácil para as intempéries da vida, incluindo um romance destinado ao fracasso com um garoto local e a erosão do seio familiar que provém seu sustento. Sua vida e anseios passam desapercebidos pela família, de classe média alta, para quem trabalha.
Apesar de Cléo ter uma rotina sem grandes acontecimentos, há uma vivência de dramas profundos. E “Roma” não se exime de tratar de questões sociais e raciais ao abordar a sua história. O trunfo da produção é pintar sua resiliência como algo poético.
Um exemplo de tratamento sensível de complexas questões sociais é o enfoque no carinho enorme das crianças por Cléo ao mesmo tempo que é dela que todos da família demandam tudo. A história desta mulher indígena poderia ser a de alguma mulher negra brasileira, país que tem o maior número de empregadas domésticas, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A trama ainda se aprofunda na representação de uma desigualdade social muito semelhante a brasileira quando retrata as dificuldades da população rural em busca de trabalho nas grandes cidades e quando singelamente contrasta duas crianças brincando de astronauta, uma com uma fantasia própria e a outra apenas com uma caixa de papelão desenhado na cabeça.

“Roma” também não peca em realizar uma contextualização histórica admirável. O filme se passa na década de 70 e retrata fatos históricos e marcantes para o México, como a Copa de 70 que foi sediada no país e o triste episódio do El massacre de Corpus Christ / El halconazo. Em referência a cultura popular retratam-se cenas da comédia pastelão, sucesso na época, assistida na TV pela família no início do filme; o desenho do casal nu feito por uma neozelandesa, retratado na roupa do namorado da Cléo, que teve replicação em vários objetos no período. E, inclusive refere-se diretamente ao cenário político, com a foto do presidente da época estampada em variados locais em algumas cenas.
O longa vem repleto de lições: independente do país -Brasil, México ou qualquer outro -, da classe social ou da posição financeira, na vaidade – que se nota no tratamento que o pai da família dá ao carro e o jovem, namorado da Cléo, ao físico com as artes marciais -, nos anseios, nas necessidades de amor e afeto, todos os seres humanos temos muito em comum. E, nas dificuldades, tendemos a relevar nossas diferenças e nos apoiar.
É inegável que se trata de um filmão e tanto, com um ritmo lento, mas cativante. Para quem aprecia reflexão da vida cotidiana e fotografia minimalista Roma é a indicação perfeita.

Talita Ramos, Voluntária de Comunicação do Abraço
2019-03-27T15:15:04+00:00