A Revolução Haitiana e sua independência

A revolução que deu origem à independência do Haiti se configurou como o primeiro processo de independência de sucesso realizado por uma colônia negra, abalando a ordem colonialista e inspirando muitas outras nações a conseguiram sua autodeterminação. Uma história de resistência que perdura até hoje para o povo haitiano.

Os historiadores relatam a data de 18 novembro de 1803 como a data da batalha de Vertière. Esta batalha marcou o fim da sociedade colonialista, segregacionista e escravagista da antiga colônia francesa até então denominada Santo Domingo. Esta batalha assinala um sinal de rebelião, de revolta a esse sistema e toda a sua integralidade. Ela é anunciadora da independência do Haiti, que é declarada em 1º de janeiro de 1804.
Esta independência foi considerada como uma ameaça para mundo colonialista na medida que isso serviu como exemplo para os outros povos colonizados. Pode-se citar como exemplo a Venezuela, com Simon Bolívar, que continuou a sua luta contra os colonizadores para a libertação do país.

A revolução haitiana ficou marcada por ser a  única a ser completa (antiesclavagista e antisegregacionista). A independência dos Estados Unidos (1776), a primeira da América, que foi realizada antes da haitiana, não erradicou a segregação racial. Nenhuma outra revolução teve uma erradicação radical do sistema como foi a do Haiti.

Para alcançar essa luta, o general Dessalines teve que dar continuidade ao trabalho que foi iniciado por Toussaint Louverture, o grande estrategista haitiano que foi preso e levado à França pelos colonizadores. Assim, em primeiro de janeiro de 1804, Dessalines foi proclamado o imperador da nova nação haitiana. Porém, um grande desafio surge diante desse novo povo. É importante lembrar que durante a guerra da Independência as plantações, que eram naquela época a principal fonte de produção da colônia, foram destruídas. Foram contados números importantes de produções desaparecidas. A capacidade dos novos generais e oficiais de dirigir um país tão frágil é questionada, a posição da comunidade internacional, quase em totalidade adepta da teoria do mundo dito civilizado naquela época, permanece hostil e indiferente a este grande passo do Haiti. Diante destas dificuldades, um historiador chegou até a afirmar a seguinte frase: Saint-Domingue n’est plus et Ayiti n’est pas encore (Santo Domingo não existe mais e o Haiti ainda não existe). Isso para dizer que a nova nação tinha um grande desafio pela frente, o que se provou com o passar do tempo.

Um ponto interessante na história da independência do Haiti é o comportamento da França, que em 1825 exigiu que o governo haitiano pagasse um valor bem alto (aproximativamente à 90 milhões de francos, ou seja, cerca de 17 bilhões de euros) como “multa” pela perda da sua colônia.
Para alguns escritores o Haiti continua a pagar o preço da sua independência até hoje. O país foi isolado da comunidade internacional; legalmente, a nova nação não podia estabelecer comércio com outros país. Em princípio, a Rússia foi o único país a aceitar a independência do país. Por outro lado, internamente, a união entre os mulatos e os negros que facilitou esta independência foi quebrada e isso foi prejudicial para bom andamento do país. A rivalidade entre mulatos e negros está ainda presente na sociedade haitiana apesar da grande maioria de negros.

Muitos pensadores ou pessoas comuns se perguntam porque o Haiti está nessa situação se foi a primeira nação negra livre no mundo e o segundo país independente na América. Muitas tentativas de respostas podem ser evocadas; até porque uma resposta correta ou verdadeira, acredito não existe. É mais importante entender a sociedade haitiana baseada na sua história. Se o contexto da independência do Haiti acontece em grande parte concomitantemente com as irregularidades políticas e os diferentes golpes de Estado que o país viveu, é importante notar que a independência deixa um elemento positivo em cada haitiano: o orgulho de ser a primeira nação negra a ser independente na história colonial e uma coragem enorme.
Um haitiano, eu digo, é um revoltado nato, as diferentes manifestações ultimamente registradas no Haiti são um belo exemplo. O haitiano adora cita Toussaint e Dessalines quando se trata do interesse do país.

Por fim, é crucial ressaltar a forma da celebração da independência do Haiti. Todo primeiro de janeiro, em memória ao primeiro de janeiro de 1804, dia da oficialização e celebração da independência haitiana, os haitianos e haitianas em qualquer parte do mundo fazem questão de tomar sopa de abóbora. O haitiano se enche do prazer em tomar sua sopa; a sopa da independência lhe permite relembrar a independência do Haiti e que o ajuda a reforçar seu orgulho da nação. Essa prática vem do fato que durante a colonização os escravizados não podiam tomar essa sopa, que era reservada unicamente ao ricos. Em resposta aos colonizadores, a esposa de Dessalines autorizou todos a comer a sopa para mostrar a França e ao mundo todo que o Haiti se tornou um povo livre e independente. Portanto, a tradição da sopa ilustra esta união entre as diferentes níveis sociais que livraram a independência ao Haiti.

Bônus: Sanité Bélair (1781-1802)

Se o racismo silencia a Revolução Haitiana, imagina as mulheres que dela participaram? Bélair foi soldada do exército de Toussaint Louverture (1743-1803). Nasceu afranchi (alforriada) e dentro de limitações recebeu educação formal e terras próprias. Em 1971, liderou uma rebelião de escravos em L’Artibonite. Dessalines, o líder da Revolução Haitiana, a descreveu como “tigresa”. Lutou bravamente contra o exército de Napoleão e foi presa em 1802, após destacar-se em batalhas importantes. Capturada pelas tropas francesas, Sanité foi condenada à decapitação enquanto seu marido, Charles Bélair, ao fuzilamento. Um relato escrito do ocorrido diz que a personagem insistiu em ser morta como soldada, ou seja, pelo esquadrão de fuzilamento. Mesmo perante a execução do companheiro se recusou a cobrir os olhos. Suas últimas palavras foram: Viva a liberdade, abaixo à escravidão! Sua morte inspirou revolucionários. Hoje é reconhecida como heroína pelo governo do Haiti. Em 2004, foi homenageada na nota de 10 da moeda do país (gourde) através da série comemorativa “Bicentenário do Haiti”.

Escrito por Bernadin Pinquière, professor de francês do Abraço RJ.
Bônus via @nosotraslatinoamericanas