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A comunidade palestina no Chile

Na diáspora palestina, o Chile ocupa um lugar único: possui mais população palestina e descendente que o Egito ou o Líbano e um pouco menos que a Síria. Dos cerca de 10 milhões de palestinos no mundo, estima-se que centenas de milhares morem na nação sul-americana.

Numerosos estudos estimam que não há outro lugar fora do mundo árabe onde vivem tantos descendentes de palestinos como no Chile. Como a imigração palestina desenha um amplo caminho – desde as primeiras chegadas no final do século 19 aos 117 refugiados palestinos que chegaram em 2008 e foram recebidos na casa presidencial de La Moneda – é difícil saber quantos são exatamente.
No Chile, grandes fortunas levam sobrenomes de aldeias próximas a Jerusalém e são repetidas no campo da justiça, política, cultura e negócios. E em um dos bairros mais caros de Santiago fica o Clube Deportivo Palestino. Mas o que explica essa enorme presença palestina no Chile?

Um pouco sobre a história da comunidade palestina no Chile:

Imigrantes majoritariamente de fé cristã da Palestina, Síria e Líbano começaram a chegar ao Chile durante o domínio do Império Otomano e sua desestabilização. Eles viajaram para a América como parte de um movimento de migração global. Muitos acreditavam em “um novo mundo” de oportunidades. Eles seguiram a rota para a Europa ou por mar para Buenos Aires. Mas, em vez de permanecer na capital mais rica e europeizada da Argentina, muitos palestinos preferiram atravessar os Andes e continuar em direção ao Chile.
“Aqui eles foram mais bem recebidos, tinham mais espaço, melhores possibilidades”, diz Jaime Abedrapo, neto de um imigrante palestino que chegou anos 1930 e vice-presidente da Federação Palestina do Chile.
Entre 1885 e 1940, os árabes totalizaram entre 8.000 e 10.000 pessoas no Chile, segundo o livro “O mundo árabe e a América Latina”, metade deles eram palestinos.

Como outros países jovens, a nação sul-americana precisava de imigrantes como mão-de-obra para fortalecer sua economia e controle do território. E embora a elite chilena sempre optasse pelos europeus – a quem eles ofereciam terras e direitos desde o início do século 19 – árabes e palestinos optaram pelo Chile.

As chegadas do Oriente Médio aconteceram sem benefícios. Eles optaram pelo comércio e pelos têxteis, uma decisão que seria fundamental na prosperidade que faria crescer a colônia. Eles seguiram sua tradição da “barganha”, mas também atendiam a uma demanda pendente. Faziam o comércio transitório com encomendas para o interior ou para as cidades chilenas onde havia pouco para comprar.

Outros imigrantes começaram a fabricar algodão ou seda, substituindo a produção artesanal local ou as caras importações europeias. Sobrenomes de origem palestina como Hirmas, Said, Yarur e Sumar se tornariam sinônimos de uma poderosa indústria têxtil no país.

A segunda onda de imigrantes começou na década de 1920, como resultado da Primeira Guerra Mundial, com a derrota do Império Otomano Turco, e da chegada do mandato britânico à Palestina que gerou uma forte instabilidade política, social e econômica, muitos decidiram viajar “convidados” por seus parentes e amigos.
Nos anos 30, após a grande depressão mundial, os palestinos do Chile começaram a construção de grandes indústrias.

Os têxteis de origem palestina marcariam uma era econômica, política e social no Chile até o final da década de 1970. Então, após a abertura da economia nas décadas de oitenta e noventa e diante da intensa competição chinesa, a maioria dos investimentos palestinos se expandiu para outros negócios: financeiro, imobiliário, agrícola, vinícola, agrícola, alimentos e mídia.

A prosperidade explica em parte a magnitude da colônia. Os palestinos vieram de uma raiz patriarcal e famílias extensas. Se as expectativas no Chile melhoravam e as condições na Palestina pioravam com o avanço do século XX, era natural trazer a família, os primos. Os “compatriotas” formaram uma forte rede de apoio em um país relativamente pequeno.
Durante a década de 1940, os imigrantes e seus filhos já haviam adquirido uma boa posição econômica e social. Eles tinham importantes indústrias, clubes sociais, centros culturais, mídia e informação e organizações para a defesa da causa palestina. A partir daí surgiu o Comitê Árabe Central do Chile, onde em seu primeiro congresso em 1947, 250 delegados de todas as regiões do Chile participaram.
Desde então, um segmento importante do mundo político crioulo é formado por palestinos e árabes, cobrindo todo o espectro político, sem exceção.
Uma terceira onda de migração veio do al nakba, ou a catástrofe palestina, após a expulsão de quase 78% da população palestina de suas terras, situação que gerou uma importante chegada de palestinos ao Chile.
Além disso, no Chile, eles não apenas encontraram êxito econômico. Os imigrantes pertenciam às minorias cristãs, por isso, a liberdade religiosa também foi importante para a comunidade.

O Club Deportivo Palestino

Mais ao sul do Chile, em 20 de agosto de 1920, o Club Deportivo Palestino foi fundado na cidade de Osorno, como um dos únicos clubes que representam colônias no mundo. Em seus primeiros 30 anos, o Palestino atuou no futebol apenas no amadorismo, até que em 1952 consegue a autorização para disputar a segunda divisão nacional e logo na estreia se garante na elite.

O grande momento esportivo dos Tricolores aconteceu nos anos 1970, quando o zagueiro Elias Figueroa – considerado por muitos o maior jogador da história do Chile – decidiu deixar o Internacional, onde teve anos gloriosos, e voltar ao seu país-natal.

Desde então, no entanto, o Palestino pouco se destacou, virando um “ioiô” no futebol chileno, caindo para a segunda divisão e voltando à elite.

Em 2005, a diretoria tomou a decisão de transformar o clube em sociedade anônima, o primeiro na história do Chile – hoje, são 128 acionistas.

Apenas em 2013 os árabes voltaram a ter protagonismo no país, voltando à Libertadores após 37 anos.

Apesar de estar aberto a pessoas de fora da colônia em elenco, comissão técnica e diretoria (apenas um dos principais dirigentes não tem descendência palestina), o clube tem a missão de “defender e representar um país”.

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ
2019-11-26T18:22:36-03:00