fbpx

#LugareseRelatos

Na Palestina: sobre cápsulas e sementes

“Espero que aqui na Palestina vocês mantenham os olhos abertos, os ouvidos abertos e quando voltarem para o país de vocês, que mantenham a boca a aberta: falem sobre o que acontece na Palestina.”

Mais ou menos assim foram as palavras de um palestino do campo de refugiados de Dheisheh, em Belém, um dos campos mais populosos da Cisjordânia. Ou pelo menos assim minhas memórias me testam quando tento me lembrar daquela conversa num começo de noite de janeiro em 2017. O lugar era Ibdaa, um centro cultural para jovens do campo de Dheisheh, e essa não seria a única vez que eu conheceria um campo de refugiados na Palestina. Eu já estava nos Territórios Palestinos Ocupados da Cisjordânia há alguns dias com um grupo de brasileiros participantes do programa educacional da FFIPP-Brasil (Rede Educacional pelos Direitos Humanos na Palestina/Israel) que incluía também uma vivência de trabalho voluntário de um mês em uma organização não-governamental. A minha seria a poucos quilômetros dali, no centro cultural de outro campo de refugiados de Belém, o campo de Aida. Mas, antes disso, passávamos pela intensa primeira semana do programa educacional que chamamos de “semana de orientação”, justamente o que me levava ao campo de Dheisheh naquela noite.

Durante essa semana, percorremos várias cidades participando de conversas, palestras e tours políticos com ativistas, professores, jornalistas tanto palestinos como israelenses que estão comprometidos com o fim da ocupação militar na Palestina e a defesa dos Direitos Humanos e justiça social na região. Conhecemos organizações atuantes em diferentes questões que atravessam a vida dos palestinos e israelenses e pudemos aprender, por exemplo, sobre a situação dos refugiados palestinos na Cisjordânia, a militarização da sociedade israelense e da vida palestina, o alistamento militar obrigatório de israelenses e os movimentos de “objetores de consciência”(1), a expansão dos assentamentos israelenses ilegais segundo o Direito Internacional, as violações de direitos dos palestinos cidadãos de Israel e dos beduínos que vivem no sul do Estado israelense, as arbitrárias detenções administrativas empreendidas pela ocupação militar israelense na Cisjordânia, a defesa dos direitos das mulheres e da população LGBTQ+, assim como a questão das remoções de casas palestinas e do difícil acesso à água e aos serviços básicos na Área C.

Ah, sim, ainda tem isso! A geografia e a contestação de mapas e fronteiras da região são mais um desafio de se entender em meio à complexa realidade de muros, assentamentos, campos de refugiados, linha do armistício, estradas segregadas para uso exclusivo de colonos, checkpoints (os postos de controle de acesso obrigatório para transitar entre as cidades e assentamentos israelenses e as cidades palestinas), etc. Hoje, a Palestina permanece sem um Estado autônomo e soberano. Além do território de Gaza que está sob bloqueio depois da retirada israelense e Jerusalém Oriental anexada unilateralmente desde o fim da Guerra dos Seis dias em 1967, o território da Cisjordânia se encontra sob uma ocupação militar israelense que dura mais de cinco décadas. Após os Acordos de Oslo nos anos 90, foi negociado o estabelecimento de uma autoridade de autogoverno palestino, passando por um período de transição que não deveria se estender mais de cinco anos.


Este arranjo transitório foi implementado por meio da divisão do território da Cisjordânia em Área A (de controle civil/administrativo e militar da Autoridade Nacional Palestina), Área B (de controle civil/administrativo da Autoridade Nacional Palestina e controle militar de Israel) e Área C (de controle civil/administrativo e militar de Israel). O compromisso que deveria dar lugar ao Estado palestino soberano não se concretizou e esta configuração fragmentada continua sendo o arranjo atual na Cisjordânia onde a Autoridade Palestina obtém parte da responsabilidade administrativa, aliviando os custos israelenses da ocupação, enquanto o aparato de controle e segurança israelense permanece ostensivamente presente, normalizando o estado de exceção ali. Grande parte da Cisjordânia são territórios demarcados como Área C, fragmentando-a cada vez mais devido à expansão dos assentamentos israelenses ilegais ao redor das cidades palestinas e as grandes estruturas de rodovias exclusivas que conectam os assentamentos à Israel. Assim, as terras palestinas atualmente mais se parecem com um conjunto de pequenas “ilhas” do que um território contínuo como é necessário para formação de um Estado.

Fonte: If America Knew Organization

No primeiro dia que cheguei ao Lajee Center no campo de Aida (em árabe, lajee significa “refugiado”), onde passei a vivência do trabalho voluntário, me deparei ainda tentando juntar as peças de todas essas fragmentações territoriais, narrativas políticas e complexidades identitárias. A minha primeira percepção de que os palestinos se encontram tão divididos espacialmente e submetidos às condições de vida tão específicas me fazia pensar como isso poderia implicar em experiências diferentes enquanto palestinos e sua relação com a Palestina imaginada e desejada.

Há os palestinos que permaneceram onde foi estabelecido o Estado Israel e seus descendentes, os chamados de palestinos de 48 ou árabe-israelenses. Apesar de possuírem a cidadania de Israel, sofrem tratamentos discriminatórios direta ou indiretamente baseados em diversas leis(2), o que leva muitas organizações e ativistas declararem a condição desses palestinos como cidadãos de segunda classe no Estado israelense. Já os palestinos de Jerusalém Oriental possuem status diferente dos demais, são considerados residentes permanentes(3), sendo governados pela mesma lei aplicada aos estrangeiros que vivem em Israel. Esta é uma condição extremamente precária, pois a permissão de residência é passível de ser revogada caso não sigam exigências como a comprovação que Jerusalém é “o centro de suas vidas”, lealdade ao Estado de Israel, dentre outras. Além disso, há os palestinos de Gaza, vivendo isolados em um bloqueio imposto por Israel e Egito, os palestinos da Cisjordânia, os palestinos da diáspora vivendo em outros países pelo mundo e, ainda, os palestinos em situação de refúgio que residem em campos de refugiados na Cisjordânia, em Gaza e em outros países do Oriente Médio. Estes últimos foram expulsos das vilas e cidades que viviam, declaradas posteriormente como parte do Estado de Israel à época de sua constituição e desde então são proibidos de retornar essas terras a despeito de resoluções da ONU afirmando o direito de retorno dos refugiados palestinos. Toda essa fragmentação também faz parte de um projeto político israelense que é disputado, por outro lado, pelos palestinos em mobilizações de construção de sua história, memória e identidade coletiva em torno de pontos comuns unificados, como a experiência da Nakba, ainda muito viva em suas vidas e lutas por direitos.

Entrada do campo de refugiados de Aida, em Belém. Na foto, a chave que é o símbolo da luta dos refugiados palestinos pelo direito de retorno, com os dizeres “Not For Sale”. Na parede ao lado, um mural em memória das mais de duzentas crianças mortas nos ataques de Gaza em 2014.

 

Talvez você esteja se perguntando o que é Nakba, certo? Bom, de maneira bem resumida, Al-Nakba(4) foi o nome dado por palestinos ao conjunto de eventos, desde os ataques e massacres de suas vilas visando à expulsão em massa da população palestina à guerra e à constituição do Estado de Israel em 1948, sob o território da Palestina Histórica. Em árabe, Al-Nakba significa “A Tragédia” e representa esse grande marco da história coletiva do povo palestino em que cerca de 750 mil palestinos foram expulsos e por volta de 400 a 500 vilas palestinas destruídas pelas forças sionistas que buscavam criar o Estado israelense com uma maioria demográfica de judeus. Na sequência, uma série de leis e medidas(5) foram implementadas pelo novo Estado israelense a fim de expropriar as terras deixadas pelos palestinos forçadamente.
Com o prolongamento da situação e impasse em relação ao cumprimento do direito de retorno, um dos pontos mais delicados nas negociações e resoluções de paz, os refugiados palestinos passaram a enfrentar uma das condições de refúgio contemporâneas mais duradouras. É importante destacar que ao refugiado palestino não se aplica a definição da Convenção para status de refugiados de 1951, da ONU. Segundo a UNRWA, “os refugiados palestinos são definidos como pessoas cujo lugar normal de residência era a Palestina durante o período de 1º de junho de 1946 a 15 de maio de 1948 e que perderam tanto casa quanto meios de subsistência como resultado do conflito de 1948″. Além disso, os registros de refugiado são reconhecidos pela UNRWA para os descendentes de refugiados homens palestinos, um processo diferente dos países que costumam adotar a Convenção de 1951. Houve também um novo fluxo de deslocamento forçado e a necessidade de construção de mais campos de refugiados em conseqüência das hostilidades de 1967, iniciando o período de ocupação militar de Gaza e Cisjordânia e anexação de Jerusalém Oriental.

Ainda me lembro das primeiras impressões que tive ao entrar no campo de Aida: de me ver pequena frente ao enorme portal preto em forma de fechadura, de avistar o mural com os nomes das mais de duzentas crianças palestinas mortas nos ataques israelenses à Gaza em 2014, de me virar para o outro lado e encarar a foto de Aboud, o menino palestino assassinado por um sniper israelense enquanto conversava com seus amigos na entrada do campo. Eu e Flávia, uma amiga brasileira que também trabalhou na Lajee, éramos guiadas nesta primeira visita ao campo por um refugiado palestino que trabalha no jardim/ espaço de convivência para crianças e jovens da Lajee. Ele, que não falava inglês, nós que não falávamos árabe, caminhamos pelo campo em um silêncio acolhedor e curioso que só era interrompido pelas risadas das mímicas e esforços de comunicação entre nós, algo recorrente em nossa interação e que marcaria nossa relação com ele durante toda estadia na Lajee.

Logo após o portal, havia um muro branco com alguns rostos de homens pintados à tinta preta. Naquele momento não entendi muito bem o que aquilo significava, mas depois descobriria que estes eram os rostos de alguns dos prisioneiros políticos do campo e que essas histórias eram mais comuns do que eu gostaria de pensar. Difícil, na verdade, seria passar pelo campo e não ser atravessada por histórias como essas em qualquer conversa jogada fora despretensiosamente. Entre goles de chá e café, as histórias iam aparecendo com um tom de naturalização que somente contextos de violência tão generalizados permitem. Durante esse mês que estive trabalhando no centro da Lajee, em uma madrugada de fevereiro, as forças do Exército Israelense invadiram algumas casas e levaram presos em torno de 18 jovens e adultos de Aida, sem acusação formal (as chamadas prisões ou detenções administrativas). Um deles era um adolescente de 16 anos, membro da Lajee, que havia conhecido durante as atividades da unidade de preservação ao meio ambiente do centro onde limpamos o jardim junto com os outros adolescentes e jovens do campo. Nas semanas seguintes, as famílias ainda não sabiam em qual prisão seus familiares haviam sido levados presos. Outro caso marcante durante esse mês em que estive em Aida foi de uma criança de 13 anos levada presa pelos soldados israelenses em plena luz do dia(6). São mais de 12 mil crianças palestinas presas desde os anos 2000(7), processadas em corte militares israelenses devido à ocupação militar vigente na Cisjordânia. Diversos tipos de violações são relatados, desde casos de tortura durante o período da detenção até a condução indevida e arbitrária dos processos nas cortes.

Poster encontrado na entrada do campo de refugiados de Ainda em que está escrito a mensagem: “Meu nome é Aboud Shadi, um refugiado palestino de 13 anos de idade. Eu estava em pé bem aqui, passando tempo com meus amigos, quando um sniper israelense me assassinou. Minha alma permanece perseguindo o assassino e motivando meus colegas de classe. Eu imagino se a comunidade internacional vai trazer justiça às crianças palestinas”

 

Esses são alguns dos recorrentes exemplos de como a vida sob ocupação militar violenta o direito à infância e à juventude dos palestinos, massacrando ao mesmo tempo todo o tecido social de uma sociedade. A maioria dos jovens e crianças presas é do gênero masculino, constituindo um retrato que, em alguma medida, se assemelha com a experiência da militarização da vida nas favelas e periferias brasileiras. Nos corpos racializados de meninos e homens jovens são inscritos a ultrapolitização de uma ameaça em potencial, por isso tanto nossas periferias como os campos de refugiados palestinos são excepcionalmente demarcados como lugares a serem vigiados, controlados e reprimidos(8). Os campos de refugiados na região da Cisjordânia começaram a ser estabelecidos por volta de 1950 como uma solução temporária ao refúgio palestino, entretanto a questão palestina persiste há mais de 70 anos. No imaginário comum de um campo de refugiados provavelmente estão imagens de tendas brancas da ONU em condições extremamente precárias. No entanto, esta já não corresponde à realidade atual dos campos palestinos na Cisjordânia. No período posterior à Nakba, de fato foram estabelecidas as conhecidas tendas pela a UNRWA (a Agência das Nações Unidas para os refugiados palestinos), mas anos depois elas deram lugar às pequenas casas, que tinham dois modelos dependendo do tamanho das famílias. Desde então, a população palestina cresceu ao passo que os limites do campo não podem ser expandidos, gerando problemas habitacionais e estruturais de saneamento e provisão de serviços.

Foto da atuação do exército militar israelense próxima ao Lajee Center e a entrada do campo de Aida, em fevereiro de 2017.

 

As estruturas dos campos de refugiados hoje em dia se parecem muito com as periferias das áreas urbanas brasileiras devido às soluções improvisadas para remediar a questão habitacional. Um puxadinho é construído aqui, mais uma laje levantada pra lá e as muitas construções que vão ficando inacabadas… Construções à espera, como é marcada de certa forma a vida no refúgio. Além disso, as estruturas do campo foram se integrando à paisagem urbana das cidades palestinas, tornando às vezes difícil para um turista desavisado perceber que aquele lugar é, na verdade, um campo de refugiados. Mas há certos elementos que podem nos dar algumas pistas. Os campos têm paredes e muros que gritam a luta e a política de memória dos refugiados palestinos.

No campo de Aida, essas marcas vivas se destacam em meio à cor crua do Muro da Cisjordânia que delimita e acompanha o campo em uma de suas extremidades, colorindo de forma paradoxal o grande símbolo do apartheid. A figura da chave costuma estar presente por toda a parte, porque os palestinos que fugiram de suas casas na época dos ataques e massacres da Nakba guardaram suas chaves, pois pensavam que poderiam voltar para suas casas quando a situação de conflito acabasse. Transformada no grande símbolo do Direito de Retorno, ela é passada para as gerações mais novas das famílias palestinas. Podemos ver também muitos grafittes com artes de resistência e menções às vilas palestinas destruídas, de onde vieram as famílias que fugiram para os campos.

Graffiti em um muro no campo de Aida, em Belém, com o nome das vilas de origem das famílias palestinas que foram deslocadas forçadamente durante a Nakba e desde então vivem no campo de refugiados.

Falar sobre a Palestina é um processo complexo. Por vezes me vi vomitando palavras e histórias e números. Em fluxos revoltados, apaixonados e dolorosos, queria passar a urgência da questão para todas as pessoas que cruzassem meu caminho demonstrando o mínimo de interesse sobre isso (e pra falar a verdade, também o fazia com aqueles que sequer demonstravam interesse). Para daí, em seguida, chegar a frustração de não conseguir dar conta em palavras da dimensão dos sentimentos que vivi e do que significa a realidade da vida naquele lugar que parecia tão distante e agora tão íntimo. As palavras teimavam em refugiar-se onde não conseguia alcançá-las e às vezes o silêncio acabava prevalecendo ainda que não reconfortasse meu revolto mar interno. Em outras muitas vezes, me vi sendo arrebatada também pelo medo de achar que eu estava enfatizando demais as mortes, as arbitrariedades, os corpos contados… “Hoje, meu corpo foi um massacre televisionado que teve de caber em frases de efeito e limite de palavras”(9), recita a poetisa palestina Rafeef Ziadah. Ecoam na minha mente seus versos. Eu penso “não, não são só números e corpos no chão! Há resistência!”

Lembro-me das tantas histórias que ouvi em meus trajetos cruzando a Cisjordânia. Lembro-me de Aida. Dos esforços das associações comunitárias com as simples atividades da vida e da arte, porque viver e criar na Palestina é revolucionário. Lembro-me, dos protestos mobilizados, dos símbolos da violência ressignificados. São as cápsulas do gás lacrimogêneo que sufocam, mas que estão ali exibidas e guardando as sementes das hortas, num lugar onde o direito à terra é violentado diariamente. É, os palestinos são sementes, eu concluo. Mas não, espera! Não posso me permitir também romantizar a resistência. Ela machuca e adoece as pessoas. No fim do dia, é meu “guia de Aida” e amigo de silêncios e risadas sendo preso, é mais uma criança palestina cujo direito à infância é roubado, é mais um palestino como Aboud sendo assassinado…

Foto da esquerda: Espaço do jardim e área de convivência da Lajee para as crianças e jovens do campo de Aida. Em uma das árvores, uma intervenção utilizando as cápsulas de gás lacrimogêneo que foram jogadas pelas Forças Militares Israelenses no campo de futebol e no jardim enquanto as crianças jogavam e brincavam(10).

Foto da direita: Foto da estufa construída no telhado do prédio da Lajee, como parte das atividades de conscientização sobre o meio ambiente e os recursos naturais com os jovens e crianças do campo. No alto, as cápsulas de gás lacrimogêneo são reutilizadas para guardar as sementes das estufas.

A experiência no campo de refugiados de Aida me trouxe muitas reflexões não só sobre resistência, mas também sobre questões referentes às construções de imagens, afetos e expectativas de comportamento em relação aos refugiados. Esse era um assunto que já me intrigava meses antes, com minha experiência de trabalho voluntário numa organização de assistência aos refugiados e solicitantes de refúgio no Rio de Janeiro. É recorrente a circulação de discursos que constroem os refugiados como uma ameaça, por exemplo, no uso midiático de termos como “a invasão de refugiados”, a “onda de refugiados” e na retórica da segurança nacional e proteção do emprego e seguridade social para os cidadãos nacionais.
Ou ainda, como no caso dos palestinos na Cisjordânia, o fato de serem vistos como sujeitos ativos e politizados acabam quebrando com outra representação hegemônica dos refugiados, o de uma vítima passiva e recipiente de ajuda humanitária. Apesar da grande presença de ONGs e organizações humanitárias e de pessoas do mundo inteiro fazendo trabalho voluntário na Cisjordânia, intermediando processos, limitando horizontes criativos e aumentando a dependência externa, os refugiados palestinos resistem às representações de vítimas idealizadas, dóceis e sem voz como é comum no mundo humanitário e da gestão do refúgio. Eles se empenham ativamente em práticas cotidianas de politização da condição de seu refúgio. Sim, o refúgio é político (na Palestina e em todos os lugares!). Portanto, atos aparentemente simples como compartilhar suas histórias ou torna-se guia político-turístico na Palestina acabam ganhando outra dimensão dentro de um contexto em que também é necessário quebrar as fronteiras que impedem que suas narrativas ganhem mais espaço no mundo e que viabilize a construção de laços de apoio e solidariedade transnacionais para o fim da ocupação militar e a garantia do direito de retorno.

Além disso, a vivência na Palestina me fez entender melhor a importância de me atentar para as complexas e ambíguas relações estabelecidas quando nos engajamos em trabalhos voluntários, especialmente na condição de estrangeiros. O trabalho voluntário em ONGs envolve inevitavelmente a interferência na vida e na luta de outros que na maioria das vezes fazem parte de contextos muito distantes dos nossos, por isso o cuidado e a sensibilidade na construção de uma relação ética se faz tão necessário. Pensar que sabemos o que é melhor para o outro e/ou como estes grupos e povos devem conduzir suas lutas por direitos é a extensão e reprodução de um olhar colonial e paternalista, o que o autor Teju Cole chama de “complexo industrial do salvador branco”(11).

Os territórios delimitados no Sul Global e midiatizados superficialmente como “zonas de conflitos”, “zonas de miséria e pobreza” ou ainda “de países subdesenvolvidos” – leia-se “atrasados” e “não civilizados”- não estão no mapa somente à espera de mais ajuda estrangeira, de mais uma doação ou de mais um trabalho voluntário para satisfazer a “aventura exótica” de um estrangeiro ou a manutenção da sua condição de precariedade. É importante ter em mente que circuitos internacionais de trabalho voluntário também se formam como um mercado, onde populações em situação de vulnerabilidade fazem parte de uma “experiência-commodity” vendida, podendo retroalimentar as condições de vulnerabilidade das mesmas populações, sem oferecer os caminhos políticos de transformação social(12). Os trabalhos voluntários, desta forma, não deveriam ser sobre nós mesmos, nossa “boa vontade” e projeção do outro como objeto de caridade e compaixão. As emoções de compaixão e piedade, frequentemente alimentadas e direcionadas aos refugiados, revelam uma relação de superioridade em que não se reconhece no outro a capacidade e a autonomia de um igual. Falo aqui em solidariedade não porque creio que ela esteja imune de reproduzir relações hierárquicas e silenciadoras, mas porque acredito que ela, por sua vez, nos ofereça caminhos mais interessantes para pensar nossa relação com o outro e com o mundo que nos é estrangeiro e diferente. A solidariedade efetiva nos permite reconhecer uma posição mais empática e igualitária, respeitando a voz e agência do outro que é um sujeito político em sua própria luta, com suas incoerências e inconstâncias humanas assim como nós. Deste modo, podemos compreender melhor nosso lugar de aliados e os espectros de ação política possíveis em combate aos processos de precarização da vida, desigualdade social e opressões onde nos encontramos internacionalmente interligados.

Grafitti perto da entrada da base militar israelense na mesma rua onde está também o portal de entrada do campo de refugiados de Ainda. Lê-se no cartaz “Por favor, se esconda das balas de verdade e de borracha e do gás lacrimogêneo atirado pelo exército mais moral do mundo ocupando a Tumba de Raquel contra o Direito Internacional.

No mesmo dia em que recebi o convite para escrever sobre a minha experiência na Palestina para este blog do Abraço Cultural, um jovem de Dheisheh foi baleado por um soldado das forças da ocupação militar israelense. Sajed Mazher tinha 17 anos, era socorrista voluntário e estava ajudando os feridos durante a incursão do exército quando foi assassinado. A bala usada contra ele era do tipo que explode por dentro do corpo, por isso Sajed chegou ao hospital ainda lúcido, levando muitos a crer que os ferimentos não seriam tão graves, entretanto morreu uma hora depois, enquanto a bala expandia os ferimentos internos(13). Naquela madrugada durante a incursão israelense, Sajed usava um colete que era florescente no escuro e o identificava claramente como socorrista. Pouco mais de uma semana depois, no Rio de Janeiro sob intervenção federal militar, o Exército metralhava com 80 tiros um carro em que estava uma família negra no bairro de Guadalupe. Evaldo que dirigia o carro e o catador de material reciclado, Luciano, atingido tentando socorrer as 5 pessoas que estavam no carro, morreram assassinados.

Como essas histórias de violência de alguma forma dialogam? Israel é uma das maiores potências na indústria de segurança, armamento e tecnologias de repressão. Nossos países compartilham laços militares muito próximos não só em relação ao comércio de armas e equipamentos, mas também são importados de Israel treinamentos para as polícias militares em técnicas de combate de guerras assimétricas (contra “inimigos” não-estatais e urbanos)[14]. Esses sistemas de opressão e discriminação racial fazem parte de uma mesma lógica e mercado militarista em que as experiências e tecnologias israelenses testadas na repressão de palestinos são vendidas para diversos países no mundo, sustentando a economia da ocupação militar na Palestina(15) e ao mesmo tempo, no contexto brasileiro, matando nossa população negra e empobrecida.

Michelle Alexander, uma autora estadunidense negra e ativista contra o encarceramento em massa, a violência e o racismo institucional, escreveu nesse ano um artigo de opinião no New York Times(16) urgindo que é tempo de quebrar o silêncio sobre a Palestina. Recuperando o legado de Martin Luther King que se posicionou em relação ao grande conflito de seu tempo, a Guerra do Vietnã, Alexander faz um apelo para que façamos o mesmo com a grande injustiça do nosso tempo. Confesso que ainda não sei como é a melhor forma de falar sobre a Palestina ou até que ponto a minha voz consegue alcançar as pessoas da forma que gostaria, dando conta de toda complexidade nas relações de violência e resistência que encontrei ali. Mas sigo o fazendo, pois esse é um chamado da sociedade civil palestina a todos nós, um chamado em nome da justiça social e dignidade humana, de uma luta que não compreende fronteiras. Como disse Angela Davis, “das favelas brasileiras à Faixa de Gaza, da luta de negros e negras nos EUA, ao movimento anti-apartheid da África do Sul: estamos juntas lutando por liberdade, justiça e igualdade de nossos corpos”(17).

“Nós palestinos acordamos a cada manhã para ensinarmos ao resto do mundo a vida, senhor”, declama de forma cortante e afiada em seu poema, Rafeef Ziadah. E que com nossa aliança e solidariedade efetiva, os palestinos continuem nos ensinando a vida, mas dessa vez com toda a potência e vibração de um povo livre!

Notas:


1) Entrevista traduzida da Al-Jazeera com Sahar Vardi, ativista israelense que se recusou o serviço militar obrigatório por 8 vezes. Ela discute como funciona a questão dos objetores de consciência e outros assuntos da sociedade israelense. Link aqui
2) A organização Adalah, um Centro Legal para os Direitos da Minoria Árabe em Israel, possui uma base de dados de mais de 65 leis israelenses que discriminam direta ou indiretamente cidadãos palestinos em Israel ou residentes dos Territórios Ocupados com base no pertencimento nacional.
3) Segundo a Human Rights Watch, entre o ano de 1967 e o fim de 2016, foram 14.595 palestinos de Jerusalém Oriental que tiveram seu status de residente permanente revogados. Link aqui
4) Como destacado por Nur Masalha em “The Palestine Nakba: decolonizing history, narrating the subaltern and reclaiming memory” (2012), a experiência da Nakba é um lócus de memória central palestino e uma ruptura traumática na continuidade espacial e temporal da história palestina ao testemunhar o desaparecimento de todo país e seu povo dos mapas e dicionários internacionais.
5) Um exemplo é a Absentee’ Property Law, ou Lei do Proprietário Ausente. Veja aqui
6) Vídeo do momento da detenção da criança palestina do campo de Aida, em fevereiro de 2017, compartilhado pela Badil, organização que trabalha com a proteção e promoção dos direitos dos refugiados e deslocados internos palestinos. Veja aqui
7)Fonte: Addameer, organização atuante na proteção de direitos humanos e de prisioneiros políticos palestinos. Link aqui
8) A jornalista, comunicadora popular e ativista do Complexo da Maré, Gizele Martins esteve na Palestina e escreveu sobre as conexões e as semelhanças nas formas de controle e repressão encontradas no Brasil e na Palestina em contextos de militarização. Veja aqui e aqui
9) Poema de Rafeef Ziadah, “We teach life, sir”, em inglês e tradução em português. Link aqui
10) Vídeo da Lajee sobre a realidade da vida das crianças do campo de Aida, com as cenas do momento em que o exército jogou gás lacrimogêneo no jardim e dentro do centro (contêm imagens fortes do corpo do menino Aboud).
11) Link aqui
12) O jornalista Martín Caparrós traz uma critica ao turismo de voluntariado, destacando seus riscos como nos casos de trabalhos em orfanatos e com construção de escolas, poços, casas etc.
13) Fonte: Middle East Eye.
14) Entrevista com Jeff Halper, antropólogo israelense e autor do livro “War Agaisnt the People: Israel. Palestine and Global Pacification”.
15) O documentário “The Lab” dirigido pelo israelense Yotam Feldman mostra a relação entre militares, políticos e empresas privadas de segurança em Israel transformando a experiência das operações da ocupação militar israelense em um commodity no mercado de defesa e segurança mundial e a própria ocupação em um lucrativo business. O documentário possui cenas gravadas no Brasil com treinamentos do BOPE no Rio de Janeiro.
16) Artigo de opinião de Michelle Alexander.

17) Carta de apoio de Angela Davis após a decisão da cantora Linn da Quebrada aderir ao boicote e desistir de sua participação no Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv em 2018. 

Formada em Relações Internacionais pela UFRJ e mestranda no programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais do IRI/PUC- RJ. Pesquisa Refúgio, Migrações e Mobilidade Humana, foi voluntária no Programa de Assistência à Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da Caritas RJ e atualmente é membro da FFIPP-Brasil (Rede Educacional pelos Direitos Humanos em Palestina/Israel).

Thais Vivacqua
2019-05-08T16:32:54-03:00