#AbraçoIndica: Destaques da Flip 2018

A 16ª edição da Festa Literária de Paraty – FLIP – desse ano acontece de 25 de julho a 29 de julho e não é preciso ser amante de literatura para se impressionar com o evento. Essa edição reunirá no seu programa principal, 33 nomes, sendo 17 mulheres e 16 homens. Além de escritores, brasileiros e estrangeiros, a lista de convidados incluirá também outras categorias, como artistas performáticos, atrizes, cineastas, compositores, fotógrafos e sonoplastas. E que tal se inspirar no evento para descobrir novas sugestões de autores e livros? Veja nossa seleção de destaques:

Alain Mabanckou (Pointe-Noire – República do Congo, 1966) é um autor congolês que também morou na França e hoje vive nos EUA. Tem uma formação que passa pelas Letras, pela Filosofia e pelo Direito. Escreve poesia e romance entre o absurdo e o filosófico, o que fez surgir a alcunha de “Beckett africano”. Copo quebrado e Memórias de porco-espinho (ambos pela Malê) receberam láureas como o Grand Prix de la Littérature e o Prix Renaudot. Leciona literatura francesa e escrita criativa na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)

Indicação: Memórias de porco-espinho

No livro, o autor revisita, com amor e ironia, uma série de mitos fundadores da literatura e cultura africana e parodia uma lenda popular de que todo ser humano possui seu duplo animal , que nesta narrativa é um porco-espinho. Na narrativa, o animal – entre o filosófico e o malicioso – executa os desejos de seu mestre e realiza uma série de assassinatos. O romance, apesar de ser escrito originalmente em francês, guarda o ritmo da narrativa das línguas orais africanas faladas no Congo. Foi vencedor do prêmio Renaudot , um dos mais importantes da França, e publicado no Brasil em novembro de 2017 pela Malê.

Igiaba Scego (Roma,1974) é uma autora italiana de família somali. Escreve contos e romances cuja linguagem absorve fábulas, memórias e tradições  africanas. Estudou Literatura Moderna na Universidade La Sapienza, em Roma, e trabalhou como jornalista. Lança, na Flip, Adua e Minha casa é onde estou, pela Nós, e o ensaio Caminhando contra o vento, numa parceria Nós e Buzz Editora. Editou a antologia Italiani per vocazione (2005) e o livro de entrevistas Quando nasci è una roulette: Giovani figli di migranti si raccontano (2003), dedicados a registrar novas vozes de autores de diversas origens radicados na Itália.

Indicação: Adua

A protagonista é uma moça da Somália que emigrou nos anos 1970 para a Itália. Seu sonho era ser atriz de cinema, mas sua vida acaba saindo bem diferente do que imaginava. A história de Adua se alterna com a narrativa de seu pai, que serviu aos fascistas italianos na década de 1930. A relação difícil entre os dois é um dos eixos do romance. 

É um romance que fala do colonialismo e da imigração – passando pelos africanos ligados à Itália pelo fascismo, depois na década de 1970 eos que chegam agora à Europa, colocando como ligação entre todos a questão do colonialismo. “Sim, o colonialismo é a ligação. Quando a Europa fecha as postas aos imigrantes, ela está fechando os olhos para o que fez na África. E do que faz hoje, porque para mim o colonialismo não acabou. Também quis lembrar que a imigração não é algo novo”, diz Scego.

Isabela Figueiredo (Lourenço Marques, atual Maputo, 1963) é um escritora filha de portugueses que retornaram para Lisboa depois da independência de Moçambique. Estudou línguas e literaturas lusófonas, sociologia das religiões e questões de gênero. Foi jornalista no Diário de Notícias e hoje é professora de português. Conto é como quem diz (1988), seu livro de estreia, recebeu o primeiro prêmio da Mostra Portuguesa de Artes e Ideias. Publicou Caderno de memórias coloniais, que se tornou obra central no debate sobre racismo e o passado colonial português, e o recente A gorda (ambos pela Todavia, 2018).

Indicação: Cadernos de memórias coloniais

Este mês o livro Caderno de memórias coloniais, primeiro livro da autora, foi lançado no Brasil. Publicada em 2009, a obra mistura memória, ensaio e ficção e promove um acerto de contas da escritora nascida em Moçambique com o passado colonial português, onde seu pai, nascido em Portugal, personifica a figura do colonizador: despreza e explora negros em um país onde a cidadania e os direitos são reservados aos brancos.

Leila Slimani (Marrocos, 1981) é uma escritora marroquina e um dos mais importantes nomes da nova literatura francófona. Foi a primeira mulher a ganhar um prêmio literário no mundo árabe-muçulmano, o La Mamounia, com Dans Le Jardin de l’ogre (2014), um romance erótico. É autora de Sexe et mensonges (2017)ainda sem previsão de lançamento no Brasil, que reúne depoimentos de mulheres do Marrocos sobre o tabu em torno da sexualidade no país. Venceu, em 2016, o prestigioso Prêmio Goncourt com o best-seller Canção de ninar (Tusquets/Planeta, 2018). Tornou-se, por escolha do presidente Emmanuel Macron, divulgadora da língua francesa

Indicação: Canção de Ninar

Logo na primeira linha, o narrador é seco: o bebê está morto. A cena que abre o romance Canção de ninar (2016), da franco-marroquina Leïla Slimani, é fria e distante, mas a intenção não é o sensacionalismo: em suas páginas, a autora tece uma narrativa realista sobre a culpa ligada à maternidade, as relações contraditórias de poder entre mulheres, a solidão urbana, imigração e desigualdade social.

“As pessoas me perguntaram por que eu escolhi um tema tão chocante quanto o assassinato de crianças. Mas eu não estava escrevendo especificamente sobre isso. Estava escrevendo sobre a maternidade e todos os sentimentos contraditórios em volta dela: o medo de não dar conta, a culpa, a solidão, a idealização”, diz Slimani.

O romance conta a história do casal Paul e Myriam que, ansiosos por quebrar a tediosa rotina familiar que se instalou com a chegada de dois filhos, contratam a babá Louise. Depois de abrir com o homicídio das crianças, o enredo retorna à contratação de Louise e, a partir dele, constrói aos poucos uma tensão que empilha contradições de classe, raça e gênero até chegar ao final trágico que o leitor, indefeso, já conhece.

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2018-07-23T19:12:19+00:00