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Irã além da mídia

O que vem a sua cabeça quando você pensa no Irã? Petróleo? Mesquitas? Aiatolás? Armas nucleares? Guerras? Neste artigo pretendemos mostrar que o Irã é muito mais do que isso.

Para começarmos a entender um pouco deste país, é importante destacar alguns pontos:
Algumas confusões são feitas com relação ao Irã, uma vez que geograficamente o país está localizado no Oriente Médio, a tendência é colocar toda a região em uma mesma caixinha. É importante ressaltar que os iranianos são persas, e não árabes, a língua oficial é o farsi, que possui um alfabeto com as mesmas letras do alfabeto árabe além de quatro letras do alfabeto persa, porém são línguas de famílias distintas, sendo bem diferentes entre elas. Além disso, ao contrário de outros países da região em que a maior parte da população é sunita, no Irã, os muçulmanos da vertente xiita são a grande maioria.

Em outubro de 2017, juntei um véu, algumas -na época- ainda raras informações da internet e um bocado de coragem e fui sozinha para o Irã.
Passei quase 20 dias explorando um pouquinho desse lugar tão diverso e, após muitos chás, conversas e trocas culturais, ficou claro que o país vai muito além dos estereótipos e da cobertura da mídia, o Irã me surpreendeu além do imaginável em vários quesitos, se tornando um dos lugares que mais faz os meus olhos brilharem.

Como para o Abraço Cultural é fundamental mostrar a cultura dos países por um olhar diferente, quebrando estereótipos, resolvemos apresentar um outro lado do Irã, que vai além das guerras, petróleo, bombas atômicas e sanções econômicas.

Artes

Poesia

Iranianos amam poesia e têm orgulho de seus poetas, o país conta com uma extensa lista de célebres poetas, que inclui Rumi, Hafez e Ferdowsi.
A continuidade da língua persa após a conquista árabe da região, no século VII, é atribuída, inclusive, a um poeta do século X, Ferdowsi, que escreveu o longo poema épico Shahnameh (Épica dos Reis) sem usar uma única palavra de origem árabe, como manifestação política contra o domínio árabe. O livro épico se consolidou como uma vasta influência cultural e linguística, se tornando um dos grandes pilares da língua persa moderna.
A cidade de Shiraz, no sudoeste do Irã, é a cidade natal de dois outros importantes poetas persas, Hafez e Saadi, seus túmulos atraem milhares pessoas que vão prestar o seu respeito, quase como uma peregrinação, os visitantes recitam seus poemas, tocam no túmulo de mármore e se emocionam com a atmosfera do local.

Música

A relação dos iranianos com a música também vem de longa data. Sem dúvida, a parte mais incrível do Palácio Ali Qapu, é o seu salão de música. Localizado na cidade de Isfahan, o palácio foi construído em 1597 pelo Xá Abbas, O Grande, e era sua residência, contudo, foi Xá Abbas II que o ampliou e construiu em seu sexto andar um belíssimo salão de música, que foi magnificamente ornamentado com formas de instrumentos musicais iranianos. Os recortes no teto e paredes do salão, além de estético, tinham um propósito acústico, uma vez que os lugares ocos nas paredes retinham os ecos e produziam os sons dos instrumentos musicais e de canto claramente em todas as partes do salão.

Outro lugar que mostra a riqueza e diversidade musical do Irã é o Museu de Música de Isfahan. Dedicado à rica herança musical do país, o pequeno museu é muito mais do que uma série de instrumentos pendurados em uma parede. Fundado e financiado por músicos locais em dezembro de 2015, apresenta mais de 300 instrumentos de todo o Irã e outros lugares do mundo. Para completar a experiência, há apresentações de música tradicional iraniana em uma pequena e acolhedora sala dentro do museu.

Arte Contemporânea

Teerã é uma cidade bem vibrante e cosmopolita, com vários cafés e galerias de artes.
O Museu de Arte Contemporânea de Teerã (TMoCA) segue essa atmosfera jovem e criativa, expondo trabalhos de artistas iranianos contemporâneos. Na ocasião da minha visita, algumas instalações eram, inclusive, bem políticas e com críticas abertas às tradições e ao governo. Os jovens que frequentavam o local eram descolados, meninas com véus bem frouxo e os longos cabelos soltos nas costas.
Infelizmente, o Museu de Arte Contemporânea de Teerã está fechado para obras desde março de 2018.

Patrimônios da Unesco

Persépolis

Patrimônio Cultural da UNESCO, o sítio arqueológico de Persépolis se localiza a 70 km da cidade de Shiraz, sua construção teve início em 512 a.C., pelo imperador Dário I e desempenhava, sobretudo, a função de capital cerimonial, onde se celebravam as festas de ano novo. Persépolis foi destruída num incêndio depois que Alexandre, O Grande, conquistou a Pérsia.
A cidade histórica também dá nome ao célebre romance gráfico de Marjane Satrapi, que foi adaptado para um filme de animação em 2007.
O que foi preservado, dá ideia da grandiosidade e riqueza do local, os baixos relevos apresentam muitos detalhes e alguns estão em um ótimo estado de conservação. O pôr-do-sol em Persépolis é um espetáculo à parte.

Jardins persas

O Jardim Persa (باغ ایرانی‎) também está na lista de Patrimônio Cultural Mundial da UNESCO, 9 jardins ao redor do Irã fazem parte dessa lista. Eles apresentam uma diversidade de desenhos, contudo mantêm os conceitos base que têm suas origens nos tempos do Imperador Ciro, do século VI a.C.. São sempre divididos em quatro setores, com a água desempenhando um papel importante tanto para a irrigação quanto para a ornamentação. Foram idealizados para simbolizar o Éden e os quatro elementos zoroastrianos do céu, terra, água e plantas.

Desertos

O Irã possui vários desertos e um bem interessante é o deserto de Dasht (Dasht-e Lut). Localizado no sudeste do país, é um Patrimônio Natural da Humanidade, possui curiosas formações rochosas criadas pela erosão do vento chamadas kaluts, também é o local que teve a maior temperatura já registada na Terra, 70,7ºC, registrada em 2005.
O interessante dos desertos é que, além de lugares de contemplação, se tornaram locais de ‘festa’ no Irã, devido a quase ausente fiscalização policial. Jovens vão de carro e ouvem música alta, homens e mulheres confraternizam, mulheres tiram os véus e, dizem, é até possível encontrar álcool.
Então, se estiver no meio do deserto e ouvir uma música ao longe, pode ser apenas jovens querendo se divertir sem a observação constante da polícia iraniana.

Diversidade religiosa

Cristianismo

Apesar da maioria da população ser muçulmana, também há outros grupos religiosos no Irã.
Há cerca de 300.000 cristãos (2015) e o maior grupo é o de Cristãos Ortodoxos Armênios.
Localizada no bairro armênio de Isfahan, está a Catedral de Vank, que foi construída em 1606 por armênios que fugiram ou foram deportados do Império Otomano durante a Guerra Otomana (1603-1618).
O seu interior é adornado de afrescos que além da tradicional representação da vida de Jesus, céu e inferno, retratam também as torturas sofridas pelos armênios durante o Império Otomano.

Zoroatrismo

O zoroastrismo predominou como principal religião no Império Persa por quase mil anos, entre o século VI a.C até a invasão e dominação pelos árabes muçulmanos, no século VII d.C.. Desenvolvido por Zaratustra, o zoroastrismo é uma religião monoteísta e prega a interpretação dualista do mundo, dividido entre as forças do bem e do mal. Estima-se que hoje em dia existam cerca de 25 mil zoroastristas no Irã, encontrados principalmente nas cidades de Yazd e Kerman.
Dois importantes locais de peregrinação para os zoroastristas no Irã são o Templo do Fogo, em Yazd, e a montanha de Chak Chak.
O fogo é um elemento muito importante para a religião, uma vez que é considerado um símbolo supremo da pureza, representando a luz de Deus (Ahura Mazda) e a mente iluminada. O Templo do Fogo de Yazd (Atashkadeh-e Yazd) mantém uma chama do Atash Bahram (Fogo Vitorioso) que supostamente está queimando desde 470 d.C.. Há 9 templos que possuem o Atash Bahram no mundo, este é único localizado no Irã, os demais estão na Índia.

O templo localizado no topo de uma montanha no vilarejo de Chak Chak é o local mais sagrado para os zoroastristas no Irã e local de peregrinação para os praticantes da religião de todo o mundo. Chak Chak significa gotejar e, reza a lenda, que a princesa Nikbanou, filha do imperador Yazdegerd III, foi encurralada pelo exército árabe em 640 d.C. próximo dessa montanha, o imperador rezou para Ahura Mazda para protegê-la e a montanha se abriu para abrigá-la dos inimigos. Há uma nascente que goteja sempre no seu interior e, segundo a lenda, essas gotas são lágrimas de tristeza que a montanha derrama em memória de Nikbanou.

Estilo de vida

Vida ao ar livre

É muito comum ver grupos de famílias e amigos fazendo piqueniques e outras atividades ao ar livre. A praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan, é um local típico para andar de bicicleta, descansar e bater um papo. Outro local muito visitado pelos moradores de Isfahan é a montanha Sofeh, além de piqueniques há práticas de esportes, caminhadas e outros exercícios.

Cultura do chá

Você já deve ter ouvido falar da hospitalidade árabe ou turca, bem, a hospitalidade persa também é de tirar o chapéu. Os iranianos têm muito interesse em conversar e sempre ficam curiosos em saber porque você escolheu o Irã como destino turístico, querem saber quais são suas impressões e perguntam sobre o seu país de origem. Como mulher viajando sozinha, eu era mais abordada por outras mulheres para conversar, mas também sempre havia troca -ou pelo menos uma tentativa, por conta da barreira linguística- com taxistas, vendedores e atendentes em geral e, entre os homens, quando falava que era brasileira, o primeiro comentário era sempre o futebol, todos sabem de cor todos os nomes dos jogadores mais famosos da história da seleção brasileira. E, claro, nenhuma conversa no Irã acontece sem estar acompanhada por um delicioso e açucarado chá (چایی).

Considerações finais

O Irã é um país extremamente diverso, apresenta inúmeras outras religiões, culturas, etnias, patrimônios naturais e culturais, este artigo foi só uma pequena parte do que se pode esperar de um país tão desconhecido para nós.


E, se você se animou em viajar para o Irã depois de conhecer um pouco mais sobre o país, aqui vão algumas informações práticas:
• Brasileiros, assim como boa parte das nacionalidades, precisam de visto para viajar para o Irã e, após o acordo nuclear e da retirada das sanções econômicas em 2015 pelo então presidente Barak Obama, o país se abriu mais para o turismo, sendo possível desde janeiro de 2016, tirar um visto na chegada (visa on arrival) em qualquer aeroporto.
• Como quase nenhum seguro de viagem cobre o Irã, é necessário, antes de solicitar o visto no aeroporto, contratar -no próprio local- um seguro, sem o qual não é possível fazer a solicitação do visto.
• Voos diretos de capitais europeias estavam se tornando cada vez mais frequentes, saindo de Paris, Amsterdam, Roma, Londres e Frankfurt, por exemplo. Mas, com o retorno das sanções econômicas impostas por Trump, as companhias aéreas europeias não fazem mais o voo Europa-Teerã direto, ao escrever este artigo, encontrei apenas voos da Lufthansa, saindo de Frankfurt.
• Sobre segurança: fique tranquilo, o Irã é super seguro!
• O deslocamento entre cidades pode ser feito de ônibus, há inúmeros ônibus fazendo o trajeto entre as principais cidades, eles estão em bom estado de conservação e são baratos. A população local utiliza esse meio de transporte para se deslocar de uma cidade para outra. Um detalhe interessante é que mulheres não se sentam ao lado de homens desconhecidos, se houver apenas um lugar ao lado de um homem, eles reorganizam o ônibus para que duas mulheres se sentem juntas.
• Quanto às vestimentas, se você for mulher, é necessário cobrir os cabelos com um lenço, mas não há problema em aparecer um pouco do cabelo na frente, várias iranianas usam o véu bem solto. Também é preciso usar por cima da calça comprida, uma blusa/vestido bem larguinha, que vá pelo menos até a metade da coxa e cubra até abaixo do cotovelo, mas o melhor é que cubra o braço inteiro e vá até o joelho, dessa forma você se sentirá mais confortável para andar pelos locais.

Respeitando os códigos culturais locais e estando aberto para novas experiências e pontos de vista, você certamente terá dias incríveis no Irã!

Fotos: arquivo pessoal

Tatiana Rodrigues, Coordenadora Gerencial do Abraço RJ
2019-08-19T19:32:41-03:00