Em meio à guerra, estudantes, cientistas e profissionais da saúde expõem as dificuldades em realizar pesquisa clínica na Síria

A onda de protestos no Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Iêmem e Barein deflagrados pela crise econômica, por denúncias de corrupção e pela insatisfação com os governos ditatoriais serviram de levante para revoluções populares conhecidas como Primavera Árabe e, apesar de fortemente reprimidas, algumas destas conseguiram destituir seus ditadores e seguiram rumo a transição para novas democracias. Esse não é o caso da Síria. Em 2011, após protestos a favor da democracia que resultaram na prisão e tortura de jovens, tropas do presidente Bashar al-Assad abriram fogo contra os manifestantes iniciando o longo processo de guerra civil com mais de 500 mil mortos, além de relatos de utilização de armas químicas, segundo dados do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).
Em meio à guerra, cientistas se esforçam para manter suas rotinas de pesquisa e preservar os dados coletados almejando que suas descobertas possam, de alguma forma, trazer melhorias ao povo sírio. Entretanto, frequentemente também são alvos de represálias do regime de al-Assad tão logo se manifestem sua dissidência em relação ao governo, como explicou a Astrofísica Síria erradicada na Inglaterra Rim Turkmani, em entrevista à revista Nature Middle East, em 2011.

A cientista ressaltou que a falta de liberdade intelectual e de um financiamento adequado às pesquisas são os principais fatores que dificultam o progresso da ciência no país, o qual tem tido sua importância completamente subestimada pelo regime.

Além da sua preocupação com os colegas que têm sido presos pelo regime, como o caso de sua amiga Joan Ayo, uma estudante de mestrado do curso de filosofia, Turkmani lembra que a região é um grande tesouro arqueológico e que, com a saída dos arqueólogos estrangeiros devido à guerra, essas importantes áreas estão à deriva da destruição.
Apesar de não considerar como prioridade recompor a ciência e tecnologia do país enquanto inocentes ainda morrem, a cientista reconhece a importância da repatriação de mentes sírias para fortalecer a liberdade criativa que foi suprimida durante anos.

Mais recentemente, estudantes de medicina da capital Damasco relataram em um artigo publicado na revista Lancet suas principais dificuldades em exercer a pesquisa clínica. Atualmente os estudantes contam com apenas dois cursos voltados para a área (Saúde Pública e Bioestatística) na Faculdade de Medicina da Universidade de Damasco. No artigo intitulado “Medical research in war-torn Syria: medical students’ perspective” Al Saadi e colegas descrevem que, para se obter o grau de mestrado, os residentes dos hospitais universitários contam com recursos extremamente limitados e, por isso, os estudos raramente são publicados em periódicos médicos internacionais. Ainda assim, ao longo de suas análises, eles perceberam que os dados gerados nos hospitais poderiam potencialmente ser utilizados para explorar a situação das condições médicas, investigar a eficácia das estratégias de gestão, ajudar no direcionamento dos recursos e orientar as decisões na área de saúde e, consequentemente, melhorar a prática médica como um todo.

Outra dificuldade enfrentada pelos alunos é a de compartilhamento de dados, uma vez que a eletricidade e internet são instáveis. Os pesquisadores geralmente conseguem acesso à rede apenas 2 horas por dia e, nesse curto período de tempo, ainda enfrentam dificuldades no acesso ao conteúdo científico. Por exemplo, a universidade de Damasco oferece acesso a plataformas que contém artigos científicos apenas para pós-graduandos e residentes afiliados ao hospital universitário.

Incentivos e ajudas, nacionais e internacionais, são escassas, porém essenciais ao progresso científico na Síria. A faculdade de medicina de Damasco, por exemplo, oferece apoio a estudantes que necessitam de ajuda para traduzir textos para a língua inglesa. A sociedade Médica Sírio-Americana organiza cursos online de escrita acadêmica para estudantes de medicina e médicos além de promover clubes de debates científicos. Além disso, algumas revistas da área médica renunciam às taxas geralmente praticadas de publicação para alguns países em desenvolvimento, incluindo a Síria, enquanto outras disponibilizam suas publicações e artigos online de graça, como o renomado New England Journal of Medicine.

Os pesquisadores ainda acrescentam que realizar pesquisa clínica de alta qualidade é uma missão quase impossível. Os hospitais universitários não têm um sistema eletrônico de registros médicos para arquivos, o que dificulta a extração e verificação de dados de pacientes. Devido a essa ausência, muita informação importante é perdida e, somado a isso, as constantes alterações de residência, serviços precários de telefone e internet e a insegurança durante o deslocamento pelas estradas até os hospitais tornam o acompanhamento clínico extremamente difícil, impossibilitando assim qualquer tipo de pesquisa a longo prazo.

Mesmo diante das dificuldades, nos últimos anos, o grupo de estudantes produziu alguns estudos interessantes como, por exemplo, a documentação de um caso clínico raro: o Nanismo de Mulibrey, uma desordem congênita que causa um grave defeito de crescimento nas pessoas acometidas. Apenas 110 casos haviam sido reportados no mundo, dos quais 85 pertenciam a grupos étnicos da Finlândia.

Por fim, os autores enumeram algumas ações que consideram cruciais para o desenvolvimento da pesquisa clínica e da sociedade em geral.

Dentre as quais:

1) Levante popular para pressionar funcionários do governo a acabar com a paralisia do Conselho de Segurança da ONU e impor severas sanções aos agressores.

2) Uma força conjunta demandando o fim dos ataques a instalações de saúde, profissionais e pacientes e a devida proteção de civis.

3) Um maior comprometimento do Secretariado da ONU em seus esforços para assegurar que as evacuações médicas ocorram e que o fluxo de ajuda receba a mais alta prioridade.

4) A renúncia do poder de veto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU nas resoluções que tratam do genocídio e dos crimes contra a humanidade.

5) A abertura ou reabertura das fronteiras de todos os países para famílias sírias com crianças sitiadas.

Você pode conferir a entrevista e o artigo publicado através dos endereços abaixo:
Medical research in war-torn Syria: medical students’ perspective
The struggles of the Syrian science community

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Paulo Vinicius da Mata Madeira, Biólogo. Admirador eterno da natureza e da complexidade da vida. Aficionado pelo mundo da física teórica, quântica e tudo mais que se relacione com uni(multi)versos.

Paulo da Mata Pereira, Comunicador Voluntário do Abraço
2018-11-30T10:46:33+00:00