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A criação da América Latina

e o resgate da Abya Yala

No Brasil, dia 21 de abril é comemorado o Dia da Latinidade, não muito conhecido no nosso calendário.
Aproveitamos a data, então, para discutir e tentar traçar um histórico de alguns conceitos como América Latina, latinidade e sobre o resgate do conceito de Abya Yala, termo originário da cultura indígena kuna.

A criação da América

A grande maioria das instituições e dos sistemas políticos econômicos e sociais vigentes hoje foram criados e impostos pelos povos hegemônicos de cada época. A América, continente que habitamos, não é uma exceção.

Desde a invasão, ocupação e apropriação europeia dos territórios dos povos originários da América, no século XV, o colonizador impôs uma série de comportamentos e práticas não pertencentes aos habitantes nativos da terra que hoje é chamada de América.

Não houve só a imposição de novos costumes, leis e culturas mas, ao mesmo tempo e em seu complemento, se colocou em prática um processo de invisibilização e desvalorização das culturas originárias americanas. A começar pelo seu próprio nome, “América”. O conceito de América e, posteriormente, América Latina, é uma construção semântica com implicações políticas, econômicas, epistêmicas e éticas que surgiu e se impôs, em detrimento de conceitualizações e denominações originárias deste mesmo continente.

“América”, como sabe-se, é uma homenagem ao comerciante e navegador italiano Américo Vespúcio, que depois de chegar às terras do continente, notou que o mesmo não se tratava das Índias, mas de um “Novo” Mundo. Como consequência, outros termos espaciais para esta região denominada, agora, como América, foram silenciados, como Tawantisuyu, Anáhuac e Abya-Yala.

Nessa perspectiva, a própria narrativa do “descobrimento” é parte também de uma visão de mundo restrita ao universo cristão europeu e exemplo de um discurso que posiciona a Europa como centro do mundo, descartando, mais uma vez, a contemporaneidade e coexistência dos povos que habitavam Tawantisuyu, Anáhuac e Abya-Yala (Quental, 2012). A América nunca foi uma terra a ser descoberta, a sua existência coincide com a vivência dos outros continentes, mas seu “descobrimento” foi uma invenção engendrada durante o processo da história colonial europeia e, por conseguinte, da consolidação e expansão das ideias e instituições ocidentais . Assim, podemos concluir que houve uma invenção eurocêntrica da América, que encobriu seus povos originários e invisibiliza, ainda hoje, muito das suas próprias identidades.

A “latinidade” da América Latina

Diversas fontes indicam que, na verdade, a ideia de uma latinidade foi adicionada à porção dos países abaixo dos Estados Unidos no continente americano devido a interesses imperiais europeus, sobretudo da França, no cenário das revoluções de independência que também ocorreram na época do primeiro projeto expansionista de influência estadunidense, vide a política do Destino Manifesto*, para os seus vizinhos do continente.
Diante de tal cenário, para reagir à expansão de influência norte americana, intelectuais franceses transpassam o conceito de latinidade aos países colonizados por Espanha e Portugal na América, os Estados falantes de língua derivadas do latim.
Tratou-se de uma forma encontrada pelos franceses de diferenciarem-se da Europa anglo-saxônica (Inglaterra) e demarcarem o interesse dos países europeus de origem latina sobre a América, ao mesmo tempo em que confrontavam a franca expansão dos Estados Unidos. A partir de então, a designação “latina”, explica Mignolo: “foi introduzida pela intelectualidade política francesa e usada na época para traçar as fronteiras, tanto na Europa, como nas Américas, entre anglosaxônicos e latinos” (Mignolo, 2003:59).

Anteriormente, este conceito de latinidade havia sido construído na França anteriormente como forma de rivalizar, com Inglaterra e Alemanha, a hegemonia na Europa (Mignolo, 2007). A Europa seria formada por países de origem latina e países de origem teutônica. Os países latinos, localizados ao sul, representados por Portugal, Espanha, Itália e França, seriam de formação católica. Os países teutônicos, ao norte, incluindo Inglaterra, seriam de formação protestante. As oposições entre católicos (latinos) e protestantes (Anglo-Saxões) marcaria a geopolítica européia e produziria repercussões na América.
Ainda assim, o conceito de América Latina propriamente dito é formulado pela primeira vez por José Maria Torres de Caicedo, jornalista e poeta colombiano (Feres Júnior, 2005). Diante do expansionismo territorial dos EUA, defendeu a formação de uma confederação de repúblicas latino-americanas e a base dessa união estaria na herança latina comum a esses povos. As preocupações de Caicedo, no entanto, pouco tinham relação com os interesses domésticos franceses. Seus escritos eram endereçados às comunidades de língua espanhola na Europa e na América e seus projetos de articulação política não explicitavam qualquer participação francesa.
Assim, a partir de um debate colocado em outro contexto geopolítico, Caicedo produz uma apropriação criativa da latinidade ao imprimir um sentido anti-imperialista à expressão, desvinculado-a dos interesses napoleônicos.

*Em termos breves, a doutrina do “Destino Manifesto” é uma filosofia que expressa a crença de que o povo dos Estados Unidos foi eleito por Deus para comandar o mundo, sendo o expansionismo geopolítico estadunidense apenas uma expressão desta vontade divina.

Por outro lado, na perspectiva dos países da Europa do Norte e, posteriormente, dos Estados Unidos, esses termos serviram para demarcar justamente o contrário, ou seja, a ideia de uma superioridade da “raça anglo-saxã”.
A divisão da América em Latina, ao sul, e, Anglo-Saxã, ao norte, como se vê, encontra-se relacionada, em grande medida, às contradições dos desenhos imperiais traçados pelas potências europeias sobre as colônias em processo de independência e às resistências que, no interior dessas relações sociais e de poder, foram engendradas a partir da América, que se autodenominaria Latina.
No cenário das novas repúblicas independentes da Espanha, a elite criolla – descendentes de espanhóis nascidos na América – verificou a necessidade de se reinventar, usando das ideias da latinidade para construir uma territorialidade que os pertencesse. Nesse contexto, adotaram a latinidade como uma designação de pertencimento e autodeterminação, na qual a França constituía o ideal mirado e almejado de civilização. Desta forma, ao mesmo tempo em que negavam o passado colonial espanhol e português, imaginavam-se como pertencendo à modernidade européia.

Assim, a partir da afirmação de uma unidade continental e de uma identidade regional latino-americana, a elite criolla em ascensão ao mesmo tempo em que marca sua ruptura política com a Europa, mantém sua dependência subjetiva com o modelo de sociedade europeu. Afirmam um processo de negação da Europa, sem negar, no entanto, sua “europeidade”, ou seja, os modos de vida, costumes, hábitos, visão de mundo, projetos de sociedade europeus. Conflagram sua ruptura com a metrópole justamente por compreenderem que não são reconhecidos como europeus, mas, em verdade, continuam desejando ser. Compreendem a experiência e condição colonial que os conformam, mas não são capazes de deixar de reproduzi-la. Rompem com o colonialismo, mas não com a colonialidade. Deste modo, afirmam sua “americanidade” sem deixarem de ser europeus e, ao mesmo tempo, demarcam sua diferença em relação aos ameríndios e aos afro-americanos, uma vez que estes, de maneira alguma, teriam como se sentir ou se perceberem europeus, mesmo que marginalmente.
Assim, o conceito de América Latina foi utilizado tanto para marcar uma continuidade com o modelo de civilização europeu no continente, como para reproduzir a exclusão de povos e culturas que, no período colonial, estavam localizados fora do modelo de humanidade desenhado pela colonialidade do poder. Nesse momento, “América Latina” foi o nome eleito para denominar a restauração da “civilização” da Europa meridional, católica e latina na América do Sul e, ao mesmo tempo, reproduzir as ausências (dos índios e dos africanos) do primeiro período colonial, como afirma Mignolo (2007).

O resgate da Abya Yala

Neste sentido, o resgate dos vocábulos que buscam descolonizar as semânticas impostas pela colonialidade, como Tawantisuyu, Anáhuac e Abya Yala são uma forma de resistência.

Abya Yala na língua do povo Kuna significa “Terra madura”, “Terra Viva” ou “Terra em florescimento” e é sinônimo de América. O povo Kuna é originário da Serra Nevada no norte da Colômbia tendo habitado a região do Golfo de Urabá e das montanhas de Darién e vive atualmente na costa caribenha do Panamá, na Comarca de Kuna Yala (San Blas).

Abya Yala vem sendo usado como uma autodesignação dos povos originários do continente como contraponto a América, expressão que, embora usada pela primeira vez em 1507 pelo cosmólogo Martin Wakdseemüller, só se consolida a partir de finais do século XVIII e inícios do século XIX por meio das elites crioulas com o objetivo de se afirmarem em contraponto aos conquistadores europeus durante o processo de independência. Embora os diferentes povos originários que habitaram ou ainda habitam o continente atribuíssem nomes próprios às regiões que ocupavam, a expressão Abya Yala vem sendo cada vez mais usada pelos povos originários do continente para construir um sentimento de unidade e pertencimento.

A ideia de um nome próprio que abarcasse todo o continente se impôs a esses diferentes povos e nacionalidades no momento em que começaram a superar o longo processo de isolamento político a que se viram submetidos depois da invasão de seus territórios em 1492 com a chegada dos europeus. Junto com Abya Yala há todo um novo léxico político que também vem sendo construído onde a própria expressão povos originários ganha sentido. Essa expressão afirmativa foi a que esses povos em luta encontraram para se auto-designarem e superarem a generalização eurocêntrica de povos indígenas. Afinal, antes da chegada dos invasores europeus havia no continente uma população estimada entre 57 e 90 milhões de habitantes que se distinguiam como maia, kuna, chibcha, mixteca, zapoteca, ashuar, huaraoni, guarani, tupinikin, kaiapó, aymara, ashaninka, kaxinawa, tikuna, terena, quéchua, karajás, krenak, araucanos/mapuche, yanomami, xavante entre tantos e tantas nacionalidades e povos desse continente.

A expressão indígena pode ser, nesse sentido, uma das maiores violências simbólicas cometidas contra os povos originários de Abya Yala na medida em que é uma designação que faz referência às Índias, ou seja, a região buscada pelos negociantes europeus em finais do século XV. A expressão indígena ignora, assim, que esses outros povos tinham seus nomes próprios e designação própria para os seus territórios. Paradoxalmente, a expressão povos indígenas, na mesma medida em que ignora a diferença específica desses povos, contribuiu para unificá-los não só do ponto de vista dos conquistadores/invasores, mas também como designação que, a princípio, vai servir para constituir a unidade política desses povos por si mesmos quando começam a perceber a história comum de humilhação, opressão e exploração de sua população e a dilapidação e devastação de seus recursos naturais.
Abya Yala configura-se, assim, como parte de um processo de construção político-identitário em que as práticas discursivas cumprem um papel relevante de descolonização do pensamento e que tem caracterizado o novo ciclo do movimento indígena no continente, cada vez mais movimento dos povos originários. A compreensão da riqueza dos povos que aqui vivem há milhares de anos e do papel que tiveram e têm na constituição do sistema-mundo tem alimentado a construção desse processo político-identitário.

Algumas rasas considerações sobre a identidade latina

Discorrer sobre a identidade latino-americana é, sem dúvida, uma tarefa difícil. Os países que integram a América Latina possuem grande diversidade cultural, o que não permite uma abordagem única ou conclusões definitivas sobre a questão. Rever o processo histórico que deu origem à concepção de identidade que temos hoje é determinante, pois ela não é algo acabado e imutável. Pelo contrário, se forma a partir de vários fatores que permanecem em mudança com o decorrer do tempo.
Dividimos coletivamente uma colonização predatória, que deixou sequelas sociais e econômicas por onde passou – e compartilhamos também as sequelas desse processo de maneiras muito semelhantes.
Se por um lado é polêmico encaixar todos os países da América Latina sob uma mesma identidade, também é muitas vezes bastante latente um sentimento comum de compartilhamento de histórias, sentimentos e luta permanente entre nossos países.
Ademais, sejamos todos considerados latinos ou não de um ponto de vista embasado por investigações, é fato que não podemos negar nossos laços fronteiriços, em maior ou menor escala dependendo de cada país vizinho, e que seríamos mutuamente beneficiados se estreitássemos mais nossas trocas em todos os sentidos.

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ
2020-04-21T16:24:45-03:00