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Beisebol no Caribe:
onde esporte e influência política se encontraram

Nem todos sabem mas o esporte mais popular na Venezuela não é o futebol, e, sim, o beisebol. Esse esporte, tão incomum para nós, brasileiros, na verdade é bem famoso não só na Venezuela mas também em vários países caribenhos. Mas como isso aconteceu?

A origem do beisebol é incerta mas o que se considera é que seu inventor foi Alexander Cartwright. Em 1839, ele fundou em Nova Iorque o time The Knickerbockers, escrevendo as regras do beisebol em 1845. Foi o seu time que disputou a primeira partida de beisebol nos EUA no dia 19 de Junho de 1846 em Hoboken, Nova Jersey. O esporte, nascido em 1845 pelas mãos de Alexander Cartwright demorou apenas 5 anos para se tornar o primeiro esporte profissional dos EUA. Em 1850 foi criada a National Association of Baseball Players (NABBP). Em 1876 a Liga Nacional já estava acontecendo. Ao mesmo tempo em que crescia nos EUA, o beisebol começava a ganhar força no Caribe. E o primeiro lugar onde o esporte desembarcou no Caribe foi em Cuba.

Na ilha, Esteban Bellan foi o primeiro latino a jogar na MLB (Major League Baseball, o maior campeonato do esporte dos EUA), além de ser o treinador e capitão do Habana Baseball Club, que disputou a primeira partida de beisebol da história de Cuba em 1874. Em 1978 surgiu a Béisbol Profesional Cubana, a primeira liga de beisebol cubana, graças a Emilio Sabourín. Sabourín é um personagem histórico importante por conciliar tanto o seu esforço pela causa do beisebol em Cuba quanto o seu esforço pela independência cubana frente a Espanha — algo que parecia andar lado a lado naquela época. Sabourín traficava armas e financiava a revolta de José Martí frente ao domínio espanhol. Domínio esse que via o beisebol com péssimos olhos por suspeitarem que o esporte tinha pretensões políticas. O que, de fato, poderia ser verdade pois os nacionalistas da elite cubana na época buscavam nos EUA tanto os seus modelos esportivos quanto os seus modelos políticos. Sabourín foi preso em 1895, justamente quando o beisebol foi proibido em Cuba pelos os espanhóis. O organizador da primeira liga de beisebol de Cuba foi enviado a Ceuta, no Marrocos, onde morreu em 1897.
Sabourín foi, de certa forma, a prova viva de que os movimentos revolucionários, assim como a presença imperialista norte-americana estiveram lado a lado no desenvolvimento do beisebol em Cuba e no resto da América-Latina. O esporte criado pelos norte-americanos era apenas uma amostra do tamanho da influência que os EUA viriam a ter na Ilha e na América Latina como um todo.
A difusão global do beisebol acontecia na mesma época da construção dos mercados mundiais e dos impérios coloniais. Podemos inferir que a difusão do beisebol na América Latina aconteceu como consequência da influência predominante do imperialismo norte-americano. A influência dos EUA no Caribe fez da mesma um “quintal” para os estadunidenses, dando ao beisebol a sua hegemonia na região. Após a independência cubana, os EUA assumiram de vez a sua influência na Ilha. Sobre o protetorado norte-americano o beisebol voltou a crescer na ilha, com a liga amadora surgindo em 1914 e a profissional em 1917.

Após a consolidação do beisebol em Cuba, o México foi o lugar no qual o esporte encontrou solo fértil. Quando os investimentos dos EUA no México começaram a crescer, por volta de 1890, o beisebol começou a se tornar o esporte favorito das classes altas, em detrimento do Cricket. Em 1890 os cubanos introduziram o jogo em Yucatán, graças a boa relação da península com Cuba devido ao comércio de fibras vegetais. Em 1904 foram criadas duas ligas mexicanas, sendo uma amadora, para o verão, e outra semiprofissional, para o inverno. Até 1907 o beisebol era um esporte das elites mexicanas, porém, depois da Revolução de 1920, o beisebol se popularizou entre as classes mais baixas. Em 1925 foi criada uma liga profissional no país, com todos esses esforços pela popularização do esporte sendo apoiados pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI).

Outro país caribenho como forte relação com o esporte é a República Dominicana. Lá, o beisebol surge com a chegada dos exilados cubanos da primeira Guerra da Independência (1868-1878). Foram os cubanos que formaram os dois primeiros clubes dominicanos de beisebol, em 1891. Assim como no México e em Cuba, a história do beisebol na República Dominicana passa por revoluções, não a sua, mas as do seu vizinho cubano. Foi graças a exilados da Guerra da Independência que o beisebol chegou na República Dominicana e foi graças a Revolução Cubana de 1959 que esse país se tornou o grande celeiro de talentos do beisebol latino. O beisebol, que já havia começado a engatinhar com a chegada dos cubanos, se difundiu ainda mais depois da ocupação norte-americana que durou de 1916 a 1924. Somado a isso, a República Dominicana se tornou o principal celeiro de talentos no Caribe após a Revolução Cubana de 1959.
Com a tomada do poder na ilha por Fidel Castro, as portas para jogadores cubanos se fecharam nos EUA, fazendo com que o mesmo voltasse os seus olhos para a ilha vizinha. Em 1991, 15 academias de times norte-americanos já estavam instauradas no na República Dominicana. Já Porto Rico sofreu forte influência norte-americana após o domínio estadunidense em 1898. Esse domínio na ilha fez com que o beisebol se tornasse, com o decorrer dos anos, o esporte número um de Porto Rico.

A Venezuela também conheceu o beisebol há muito. O prática de beisebol na Venezuela remonta ao final do século XIX, quando alguns estudantes venezuelanos de universidades dos Estados Unidos chegaram a Caracas e retornaram com tacos, luvas, bolas e outros acessórios para a prática desse esporte. Juntamente com a influência cultural exercida desde o século XX pelas empresas petrolíferas americanas localizadas no território venezuelano, foram fatos que se somaram para a disseminação do beisebol no país.
Em maio de 1895, os irmãos Amenodoro, Emilio, Gustavo e Augusto Franklin fundaram o primeiro clube de beisebol organizado no país: o “Caracas B.B.C.”. O primeiro jogo oficial de beisebol na Venezuela foi realizado em 23 de maio de 1895. Entre os jogadores se encontravam venezuelanos que tinham estudado nos Estados Unidos e três cubanos residentes em Caracas.
Em 1927, foi fundada a Federação Venezuelana de Beisebol, que organizou no mesmo ano o primeiro campeonato oficial, com a participação das equipes “San Martín”, “Royal Criollos“, “Santa Marta” e “Maracay“. A temporada seguinte começou o que se tornaria a rivalidade mais famosa do beisebol venezuelano, entre as equipes Royal Criollos e Magallanes.
Em 1941, o time de beisebol venezuelano era o campeão da Amateur World Baseball Series, disputada em Havana, Cuba. Essa conquista aumentou a popularidade do esporte no país. O presidente Isaías Medina Angarita decretou em 22 de outubro, quando foi disputada a final da World Series, com o Dia Nacional do Esporte.

Outra prova do sucesso do beisebol no Caribe é o própria Serie del Caribe, um torneio de clubes de beisebol criado em 1948 que reúne anualmente as equipes vencedoras das ligas profissionais dos países que compõem a Confederação Profissional de Beisebol do Caribe (CBPC): Cuba e Panamá como convidados, México, Porto Rico, República Dominicana e Venezuela como membros plenos. Além disso, espera-se que a partir de 2020 a Colômbia e a Nicarágua sejam incluídas como convidadas também.

Assim, o beisebol caminhou na América Latina por meio do Imperialismo norte-americano e por meio de Revoluções, como as de Cuba e a do México, por exemplo. A influência estadunidense não se dava apenas no modelo político e econômico no Caribe, mas também como modelo de vida. Os esportes ‘importados’ foram incorporados pelas elites latino-americanas para a reprodução dos modos de vida e organização social das potências imperialistas. Porém, os mesmos esportes puderam transformar-se em agentes anticolonialistas e anti-imperialistas. O beisebol, então, se tornou reflexo de presença imperialista ao mesmo tempo que era instrumento de luta anti-imperialista, dependendo dos atores, dos seus interesses e de seus usos.

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ
2019-09-24T17:04:36-03:00