8 filmes para conhecer o Cinema Egípcio

Já ouviu falar sobre o cinema egípcio? Não? Venha descobrir sobre a maior indústria de filmes árabes bem aqui:

Conhecido por alguns como “Hollywood do Oriente”, o Egito sempre foi a referência da indústria cinematográfica no Mundo Árabe. E não é de hoje que o país cria, consome e exporta cinema. As primeiras projeções cinematográficas no território aconteceram menos de um ano depois da primeira projeção em Paris, pelos irmãos Lumière, em 1896. Esse fato teve bastante influência para que o país se tornasse não apenas o pioneiro mas também o grande modelo e exportador de filmes entre os países de origem árabe.

Uma vez que as indústrias da música e do rádio já haviam se consolidado e pelo fato de o Egito ser um refúgio tradicional de artistas e músicos que deixaram outros países da região por restrições artísticas, a hegemonia do cinema egípcio na região do Mundo Árabe aconteceu quase naturalmente.

O Egito já produzia filmes desde a época do cinema mudo. Mas foi com a chegada do som às produções que a indústria cinematográfica do país adquiriu força regional. Em 1926, existiam 86 cinemas operando no Egito e entre 1930 e 1936, Cairo produziu 44 filmes.

Porém, o país se firmou mesmo como produtor de filmes na chamada Era Dourada, entre as décadas de 1930 a 1960, época na qual a produção cinematográfica nacional floresceu impulsionada pelos recém inaugurados estúdios e estrelas internacionais como o casal Omar Sharif e Faten Hamama. Nesse período, devido à Guerra Fria, não era muito fácil adquirir filmes americanos e europeus e a indústria ficou ainda mais aquecida. Em 1950, a média de filmes feitos por ano no Egito era de 50. Curiosamente, a primeira produção do Studio Misr, um dos mais reconhecidos, foi Wedad (1956), estrelando a lendária cantora Umm Kulthum (que já mencionamos aqui!).

Em 1961, já sob o regime de Nasser, a indústria cinematográfica foi nacionalizada e foram produzidos filmes considerados tesouros do cinema egípcio, como El Haram, Shay men el Khauf, El Nasser Salah Eldin, El Adeyya e Al Mumia, que na época não foram sucessos de bilheteria mas foram reconhecidos internacionalmente.

Nas décadas seguintes a indústria foi decaindo por vários motivos entre os quais menos investimentos públicos no setor, censura e a maior difusão da televisão. Em 2011, com a primavera árabe e posteriormente com o governo do presidente Mohamed Morsi, a indústria sofreu mais um baque. Os toques de recolher colocados em prática pelo governo reduziram muito o público do cinema e a produção despencou.

Felizmente, depois de anos de instabilidade, há sinais de que a potência do cinema egípcio está voltando à vida. Algumas produções recentes estão trazendo o público de volta aos cinemas e quebrando recordes de bilheteria, como a comédia Hepta (2016), e outras produções, como Clash (2016), aclamadas internacionalmente.

Então, aqui vai nossa seleção de oito filmes egípcios entre clássicos e atuais que refletem a dimensão e pluralidade do cinema do Egito:

Eshtebak/Clash (2016), de Mohamed Diab

O filme se passa em 2013, logo após o momento conhecido como revolução para os egípcios e como primavera árabe nos países fora do Mundo Árabe, e reúne, dentro de um camburão, integrantes da Irmandade Muçulmana e manifestantes pró-Exército. Quando ouvem uma explosão, o caos se instaura dentro do veículo. Um dos objetivos do diretor era justamente que os personagens presos no camburão fossem representativos do momento que a sociedade egípcia estava vivendo.

El Cairo 678/Cairo 678 (2012), de Mohamed Diab

Diab usa o caótico trânsito do Cairo como pano de fundo para desenvolver a história de três mulheres de diferentes formações e classes sociais que foram vítimas de um problema recorrente no país: o abuso sexual. Fayza (Boshra) é uma dona de casa pacata e mãe de dois filhos, que não consegue evitar o assédio diário ao pegar o ônibus. No outro lado da cidade vive Seba (Nelly Karim), uma endinheirada designer de joias que, após ser violentada durante um jogo de futebol, passa a ensinar outras mulheres a se defender. Já Nelly (Nahed El Sebaï) virou alvo de todo o país ao se tornar a primeira egípcia a apresentar uma queixa na justiça por assédio sexual.

Asmaa (2011), de Amr Salama

Escrito e dirigido por Amr Salama, o filme é o primeiro longa-metragem a apresentar de maneira “simpática” pacientes com AIDS. A produção conta a história de uma mulher com HIV que luta para viver sob o fardo de manter seu status de soropositiva em segredo e lida com um dilema quando oferecem a oportunidade de aparecer em um programa de televisão. Segundo Salama, “o filme não é sobre AIDS, mas sim sobre a batalha contra o preconceito social no Egito e sobre amor, coragem, superação do medo e luta pelos direitos pessoais”.

Ehky Ya Shahrazad/Scheherazade, Tell Me a Story (2009), de Yusri Nasrullah

Uma apresentadora de TV usa o espaço de seu programa de TV para lançar luz sobre os problemas das mulheres na cidade e uma das histórias de seu programa de entrevistas bem sucedido é sobre uma família de três irmãs que vivem em uma das favelas do Cairo. Um homem que trabalha perto de onde elas vivem manipula as três irmãs para dormir com ele. No Cairo, os homens que dormem são considerados garanhões, enquanto mulheres que fazem o mesmo são estigmatizadas e envergonhadas por todos, inclusive por outras mulheres. O enredo examina como muitas mulheres do Cairo alcançam um nível avançado em independência de pensamento, crença e escolha de estilo de vida, enquanto outras sem oportunidades tornam-se vulneráveis a abusos e manipulação.

Omaret Yakobean/O Edifício Yacoubian (2006), de Marwan Hamed

Construído em 1930 no centro do Cairo, o edifício Yacoubian é o vestígio do esplendor do passado. Hoje, através dos caminhos dos habitantes que se cruzam, desenha-se um retrato sem máscaras do Egito moderno, onde corrupção política, organizações islâmicas, rupturas sociais, ausência de liberdade sexual e nostalgia do passado se misturam: o retrato de uma sociedade complexa e plural, surpreendente e atraente.

Al-massir/O Destino (1997), de Youssef Chahine

Youssef construiu uma fábula contra a intolerância e o obscurantismo que atravessam a região na forma de dogmas religiosos, passíveis de perseguição e morte. A atualidade do tema situa-se ironicamente no século 12, na região de Córdoba, onde viveu o filósofo Averróis. Averróis começa a questionar a verdade religiosa contida no Corão, o livro sagrado do Islamismo, propondo uma nova interpretação. Com isso, passa a ser perseguido pelo califa Al Mansour, que manda queimar todos os seus livros. Mobilizados diante de tamanha heresia, os amigos e familiares do pensador começam a contrabandear cópias de seus textos para além das fronteiras do país, na tentativa de resguardar sua obra da fúria do califa.

El Erhab Wel Kabab/Terrorism and Kebab (1992), de Sherif Arafa

Existe um ditado popular no Egito que diz “Por que morrer e ir para o inferno quando você pode ir para Mogamaa El Tahrir?” O icônico edifício modernista da década de 1940 construído no coração do Cairo como um prédio administrativo do governo,foi inaugurado pelo rei Farouk, em 1949. Na década de 90, o edifício tornou-se um símbolo da burocracia e corrupção egípcias, o qual o filme sugere que leva à violência e ao terrorismo. O enredo gira em torno de um cidadão frustrado que sofre a ineficiência do sistema burocrático para conseguir serviços simples, como trocar o filho de escola. O homem perde qualquer senso e ataca um funcionário religioso, acabando por manter vários reféns dentro do prédio. Os reféns, que são de diferentes faixas etárias, gêneros e origens, se unem ao carcereiro e, juntos, reforçam as exigências ao governo e protegem o prédio da infiltração policial. A narrativa aborda extremismo, sexo, tabus e política na capital excessivamente povoada e estressante. Muito representativo da comédia dos anos 1990 do cinema egípcio, o filme retrata de maneira ficcional e irônica para muitos habitantes do Cairo as suas próprias experiências coletivas no Mogammaa.

Bab El Hadid/Estação Central do Cairo (1958), de Youssef Chahine

Qinawi (Youssef Chahine), deficiente físico, é vendedor de jornais numa estação de trem do Cairo e se apaixona obsessivamente por Hanuma (Hind Rostom), jovem que vende bebidas no local. Ela acha graça dos gracejos de Qinawi e mantém um relacionamento com Abou Serih (Farid Chawki), respeitado guarda da estação que no momento lidera os demais funcionários na luta por melhores condições de trabalho.

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Roberta ama café com leite, cactos e gatos. É formada em Relações Internacionais pela UFRJ e teve seu percurso profissional marcado, desde cedo, pelas áreas da comunicação e do ensino de idiomas. Hoje, desempenha a função de coordenadora de comunicação e de cultura, e espera que seu trabalho possa impactar positivamente a vida de muitas pessoas.

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ
2018-10-19T15:36:24+00:00

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