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#AbraçoIndica: 5 escritoras árabeS para ler

Apesar de seu caráter milenar, a literatura árabe é pouco conhecida pelos leitores brasileiros. Uma das razões da escassez de traduções de livros árabes para versões em português é a própria falta de tradutores, diante das peculiaridades linguísticas do idioma, “As diferenças sintáticas, morfológicas e fonético-fonológicas constituem uma grande dificuldade, tendo como principal consequência a falta de tradutores dessa língua”, como explica Mamede Jarouche em entrevista, tradutor do quarto e último volume do clássico As Mil e Uma Noites, traduzido pela primeira vez do árabe para o português em 2012.

Mas nem tudo está perdido. Na última década tivemos lançamentos significativos da literatura árabe no Brasil, como Miramar, do vencedor do Nobel de Literatura em 1988, Naguib Mahfouz, traduzida por Safa Jubran, e Tempo de Migrar para o Norte, do escritor sudanês Tayeb Salih, considerada a mais importante novela árabe do século XX. Em 2009, a Companhia das Letras publicou também um dos maiores best-sellers da literatura árabe, O Edifício Yacubian, do escritor egípcio Alaa Al Aswany, traduzido por Paulo Farah.

Outro fator que fortalece a chegada da literatura árabe no país é a presença cada vez maior de escritores que têm visitado o Brasil para participar de eventos literários. A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a mais importante do país, é um dos eventos mais frequentados por escritores árabes. Em sua edição de 2006, recebeu o palestino Mourid Barghouti; em 2007, foi a vez da egípcia Ahdad Soueif; e em 2012, o poeta sírio Adonis, que compareceu à festa para divulgar a publicação da antologia de seus poemas.

Embora num processo tardio, o recente crescimento de traduções de obras literárias árabes para o português ainda avança lentamente. Além da vasta obra contemporânea de autores libaneses, tunisianos, sírios, egípcios e argelinos, por exemplo, também há a literatura mais antiga, que nunca teve oportunidade de chegar ao público brasileiro.

Esta última década revelou novas caras da literatura árabe para os leitores brasileiros, despertando gradativamente o interesse de editores e alimentando boas expectativas quanto ao futuro dessa criação literária em território. Resta esperar que essas estimativas se confirmem e que novos autores sejam publicados no país.

Escritoras árabes

Quando se trata de escritoras árabes com literatura publicada no Brasil, o número abaixa consideravelmente. Geralmente também menos conhecidas, nosso objetivo nesse artigo é apresentar e valorizar um pequena porção da ampla variedade de escritoras árabes existentes e suas obras.

Nawal El Saadawi | نوال السعداوى

Nawal El Saadawi (Kafr Tahla – Egito, 1931) é escritora, ativista, psiquiatra e feminista egípcia. É considerada uma das escritoras árabes pioneiras da modernidade, tendo escrito muitos livros que abordam a situação da mulher no islã, dando atenção particular à prática da mutilação feminina na sociedade onde nasceu.
Saadawi nasceu em pequena cidade do Egito, Kafr Tahla, sendo a mais velha de nove filhos. De uma família relativamente progressista, Saadawi foi incentivada a estudar, o que não era tão comum na época. Após se formar em medicina em 1955 e começar sua prática profissional, passou a observar problemas físicos e psicológicos das mulheres que atendia e os relacionou à práticas culturais opressivas, ao sistema patriarcal, à opressão de classe e imperialista. Foi então que Nawal começou a escrever, publicando em 1960 seu 1º livro, “Memoirs of a Woman Doctor”, com suas experiências através dos relatos e observações dos transtornos que atingiam as mulheres na sociedade egípcia.
Em 1972, publicou Al-Mar’a wa Al-Jins (Woman and Sex), confrontando e contextualizando várias agressões perpetradas contra os corpos das mulheres, incluindo a circuncisão feminina, que se tornou um texto fundamental da segunda onda do feminismo. Como conseqüência do livro, bem como de suas atividades políticas, Saadawi foi demitida de seu cargo no Ministério da Saúde. Considerada polêmica e perigosa há muito pelo governo egípcio, Saadawi foi presa em setembro de 1981 junto com vários opositores ao Tratado de Paz de Jerusalém pelo presidente Anwar al-Sadat. Ela foi liberta mais tarde neste ano, após o assassinato do mesmo. De sua experiência, Nawal escreveu “O perigo faz parte da minha vida desde que eu peguei uma caneta e comecei a escrever.Nada é mais perigoso do que a verdade em um mundo que mente.”

Indicações:

A Face Oculta de Eva | Único livro de Saadawi traduzido para português, a obra originalmente publicada em 1977 relaciona de maneira bem intrínseca questões femininas egípcias, mas também de todo o mundo com a opressão do patriarcado e do capitalismo sobre as mulheres, além do feminismo árabe. No livro, Nawal salienta “A história tem descrito, com falsidade, muitos dos fatos relacionados ao sexo feminino. As mulheres árabes não são mentalmente deficientes, como os homens e a história, escrita por eles, tendem a afirmar, tampouco são frágeis e passivas. Ao contrário, as árabes mostraram resistência ao sistema patriarcal centenas de anos antes que as americanas e europeias se lançassem a essas mesmas lutas”. Sistema esse que passou a predominar a partir do surgimento da noção de propriedade privada e divisão de classes, como ensina Nawal em sua obra. Em tempos ancestrais, em que predominava o nomadismo e a agricultura de subsistência, as mulheres detinham a igualdade em assuntos sociais, econômicos e na esfera política.

Woman at Point Zero | Talvez seu romance mais famoso, “Woman at Point Zero” é inspirado na história de uma prisioneira no corredor da morte na prisão Al Qanatir, no Egito, na qual El Saadawi conheceu enquanto realizava um projeto de pesquisa. Firdaus, protagonista do romance, está na prisão por assassinar seu cafetão. Ela também se recusou a assinar um documento ao presidente implorando pela sua vida. Orgulhosa, apesar de uma vida de dor ininterrupta e repetidas traições, ela narra sua história para uma psiquiatra feminina na véspera de seu enforcamento. O texto tem uma qualidade altamente visual: olhos desencarnados pairam sobre Firdaus em momentos importantes da sua vida, representando emoções intensas – medo, amor. Genitalmente mutilada quando criança, Firdaus sente o desejo sexual como uma memória distante, algo que já foi vislumbrado, agora apenas vagamente lembrado. A narrativa é tornada épica pelo uso de longas passagens repetidas que explicitam as conexões entre os estágios da jornada de Firdaus em direção ao assassinato. Como relato na primeira pessoa, o livro inicialmente parece estreito em foco, mas se baseia em uma acusação abrangente e sanguinária da sociedade patriarcal.

Joumana Haddad |جمانة حداد‎

Joumana Haddad (Beirute – Líbano, 1970) é uma poeta, escritora, jornalista e ativista dos direitos das mulheres no Líbano. Joumana nasceu em uma família conservadora cristã ortodoxa. Sua mãe é de origem armênia. Ela foi selecionada como uma das 100 mulheres árabes mais poderosas do mundo por quatro anos consecutivos pela Arabian Business Magazine, por seu ativismo cultural e social. Haddad é fundadora da Jasad, revista erótica trimestral em língua árabe e editora cultural do principal jornal libanês, An-Nahar. A revista publica poesias, ilustrações e depoimentos pessoais sobre sexo, casamento, virgindade, poligamia, com abordagens que geralmente chocantes para o público mais conservador da região. Editada em Beirute, a revista se espalha clandestinamente pelo mundo árabe. Ela é autora de 16 obras de poesia, ensaios e romances e uma das principais vozes na literatura árabe popular contemporânea.
Haddad já recebeu e recebe até hoje muitas críticas no Líbano, inclusive ameaças de morte e explica: “Meu discurso é humanista, não é ocidentalizado. Falando do Líbano, a segunda coisa é que eu sempre ouço: E eu respondo… Apenas do lado superficial do Líbano. Um dos critérios mais importantes para medir a modernidade de um país, bem como o respeito aos direitos humanos, é a situação das mulheres no país. Um olhar aprofundado sobre as mulheres libanesas revelará que muitas delas podem vestir o que quiserem, podem dançar até as 4 horas da manhã, podem dirigir seu carro… O verdadeiro problema do Líbano e do mundo árabe é o extremismo religioso e o que ele tem feito, qualquer que seja esse extremismo religioso. E eu acho que isso está em toda parte, está se espalhando como um câncer, e afeta sua vida toda, todos os detalhes da sua vida. Ele afeta a cultura, afeta a educação, afeta a visão, afeta a maneira como seus filhos serão criados.”

Indicação:

Eu matei Sherazade | É um livro onde a reflexão sobre a condição das mulheres árabes contemporâneas se mistura com as memórias pessoais da autora, que viveu a infância e a adolescência numa Beirute em guerra, e também com a poesia. Joumana Haddad conta de que forma a leitura clandestina de Sade, que iniciou aos 12 anos de idade, transformou a sua vida e a sua visão do mundo, e a levou a escrever poesia libertina e a fundar, aos quarenta anos, a primeira revista erótica em língua árabe.
Publicado em inúmeras línguas, este livro é um vendaval que varre as ideias-feitas sobre as mulheres árabes e reflete sobre as razões que levaram a que o erotismo, tão presente na literatura e na cultura árabes antigas tenha sido apagado da cultura árabe contemporânea e substituído por livros pretensamente religiosos que apelam à violência e até violação. Os equívocos orientais e ocidentais sobre a religião, a identidade, o patriotismo, a submissão, a liberdade e a igualdade de género são analisados com desassombro neste livro.

Ulfat Idilbi | ألفت الادلبي‎

Ulfat Idilbi (Damasco – Síria, 1912) foi uma famosa romancista síria. Idilbi escreveu livros que se tornaram best sellers no Mundo Árabe como “Dimashq ya Basimat el Huzn” (“Damascus – the Smile of Sadness”) que teve também sua versão “musalsalat”, as famosas novelas sírias.
Nascida em 1912 em uma tradicional família damascena, Ulfat foi afetada pela ocupação francesa na Síria. Então, começou a escrever e publicar histórias sobre o movimento de resistência sírio, principalmente em relação às injustiças cometidas pela ocupação francesa e sobre as pessoas que estavam envolvidas em uma luta por suas vidas, pela liberdade e pela independência de seu país.
Mais tarde, ela se tornou professora e escreveu romances e ensaios sobre a posição social das mulheres no Oriente Médio, bem como sobre a pressão e o sofrimento que sofrem. Ulfat enfatizou o tema das mulheres frequentemente gastando tempo em seus próprios mundos inexistentes.
Aos 17 anos ela se casou com um fisiologista alemão, Dr. Hamdi al-Idilbi. Normalmente mulheres casadas retiram seus nomes de família, mas Ulfat rejeitou o que ela via como um costume patriarcal e insistia em ser conhecida como a Sra. Idilbi.
Ela começou a escrever e publicar histórias em revistas na adolescência. Em 1948, ela ganhou um prêmio por um conto, concedido pelo serviço da BBC Árabe, e o primeiro de vários volumes de suas histórias foi publicado em 1954. Ulfat é mais conhecida por seu romance Dimashqya Basmat al-Huzn, publicado em 1980, quando Ulfat estava quase com 70 anos. Foi traduzido para o inglês como Sabriya: Damascus Bitter-Sweet e publicado em 1995. Idilbi também foi palestrante e ensaísta sobre questões sociais, educacionais e literárias.

Indicação:

Sabriya: Damascus Bitter Sweet | Sabriya retrata a vida em Damasco na década de 1920. O centro da história é a jornada de Sabriya ao autoconhecimento, entrelaçada com a ascensão e o eclipse da consciência nacional e feminista durante sua dolorosa vida. A revolta nacional é esmagada pelo poder estrangeiro superior e a emancipação pessoal de Sabriya é sufocada pelos valores tradicionais de uma sociedade patriarcal. “Meus compatriotas exigem liberdade”, diz Sabriya, o personagem central, “mas não podem nem dar um ao outro. Metade da nação continua presa a cadeias impostas por vocês, homens”. Escrito do ponto de vista de uma jovem apaixonadamente comprometida com a causa nacionalista, mas incapaz, por causa de seu sexo, de tomar parte ativa, o livro mostra uma energia frustrada do espectador relutante e expressa vividamente o terror de civis vivendo em a cidade balançada todas as noites por explosões.
Publicado sob a ditadura em 1980, “Sabriya” é um lamento retrospectivo pelo fracasso ou mero sucesso parcial da libertação nacional e social síria.

Rajaa Alsanea | رجاء الصانع

Rajaa Alsanea (Riad – Arábia Saudita, 1981) é uma escritora saudita que se tornou famosa através de seu romance Girls of Riyadh (Banas al-Riyāḍ). O livro foi publicado pela primeira vez no Líbano em 2005 e em inglês em 2007. O livro foi listado para o Dublin Literary Award em 2009. Al-Sanea cresceu em Riad, filha de uma família de médicos. Seu romance e estilo de vida causaram polêmica, especialmente entre as seções conservadoras da sociedade saudita. Talvez o livro em si não esteja no campo das melhores literatures árabes contemporâneas, mas o debate que o mesmo gerou foi bastante interessante para a sociedade saudita e seus estereótipos em geral.

Indicação:

Vida Dupla | Através de uma série de e-mails em uma lista de assinatura do Yahoo, um narrador anônimo relata as aventuras de suas quatro jovens amigas enquanto enfrentam os desafios da vida adulta na sociedade privilegiada de Riad, na Arábia Saudita. Como todas as mulheres sauditas, devem enfrentar as atitudes conflitantes de sua cultura sobre sexualidade e seus preconceitos religiosos e de classe profundamente enraizados – pressões sociais que podem condenar até mesmo a mais auspiciosa das aparências. Nada parece sair exatamente como planejado, mas como as meninas de Riad lutam para manter sua integridade moral em um mundo moderno, elas aprendem a encontrar a felicidade em seus próprios termos.
O romance de estréia de Alsanea expõe o mundo privado das cidadãs da Arábia Saudita para descobrir jovens mulheres que, no final das contas, compartilham as mesmas esperanças e sonhos de suas contrapartes de outras culturas. Seu retrato honesto do assunto polêmico fez de Alsanea uma sensação literária e um inimigo público, provocando um debate feroz na mídia. Bem simples, mas profundamente político, Girls of Riyadh e seus relatos cômicos mas pungentes da vida saudita contemporânea o tornaram um best seller instantâneo.

Fatma Mernissi | فاطمة المرنيسي

Fatma Mernissi (Fez – Marrocos, 1940) foi uma socióloga e escritora marroquina. Ela nasceu em uma família de classe média em Fez em 1940 e cresceu no harém de sua avó paterna junto com várias parentes.
Ela estudou na universidade Mohammed V, em Rabat, bem como na Universidade de Paris e na Universidade Brandeis (EUA), onde obteve seu doutorado. Posteriormente, Mernissi retornou ao Marrocos para lecionar na Universidade Mohammed V.
Considerada uma das principais feministas islâmicas do mundo, Fatma Mernissi concentra-se seu trabalho nas atitudes do Islã em relação às mulheres e no papel que as mesmas desempenham dentro da religião.
Mernissi aborda principalmente o islamismo e os papéis das mulheres, analisando o desenvolvimento histórico do pensamento islâmico e sua manifestação moderna. Através de uma investigação detalhada da natureza da sucessão de Maomé, ela põe em dúvida a validade de alguns dos ditos e tradições atribuídas a ele e, portanto, a subordinação das mulheres que ela vê no Islã, mas não necessariamente no Alcorão.
Ela escreveu extensivamente sobre a vida dentro dos haréns, sobre a equidade de gênero nas esferas pública e privada. Como socióloga, Mernissi realizou principalmente trabalhos de campo em Marrocos.

Indicação:

Sonhos de Transgressão – Minha Vida de Menina num Harém | Marrocos, década de 40: um país dividido entre práticas ancestrais e hábitos europeus revolucionários. Nesse contexto, entre os muros altos de um harém, uma menina marroquina inicia lentamente seu aprendizado da vida, das fronteiras que dividem o sagrado do profano, o masculino do feminino. Misturando fábula e documento à maneira de uma Sherazade moderna, Fatma Mernissi oferece neste livro uma visão nova, envolvente e desafiadora dos dilemas, complexidades e riquezas das milenares culturas islâmicas.
O romance autobiográfico é narrado do ponto de vista da menina Fatma. Ela ouve sua mãe, uma mulher analfabeta, reclamar da falta de liberdade das mulheres. Ouve sua prima progressista Chama fazer discursos feministas. Mas ouve também sua avó e sua tia defenderem as tradições muçulmanas. Todas vivem na mesma casa, dividem o mesmo terraço onde bordam, contam histórias, passam máscaras no rosto e hena no cabelo. “Uma das coisas boas que tive na minha infância é que o feminismo não me foi ensinado pelo Ocidente, mas por essas mulheres analfabetas que tinham uma ideia clara de que o harém não era bom para os seus interesses e o rejeitavam tentando usar o que tinham para mudar a situação. E o que elas tinham era a capacidade de se expressar, fazer teatro, bordados.”

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Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ
2019-05-07T17:31:18+00:00