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minhas 24 horas em casablanca

Esse é um relato sobre minha estada em Casablanca, no Marrocos, durante apenas 24 horas e de como eu tive a melhor e mais autêntica experiência turística até hoje.

Bem, primeiramente, gostaria de frisar que esse relato que começo agora é um texto totalmente pessoal e que é carregado com as minhas percepções de jovem, brasileira, carioca, com os valores e bagagem cultural próprias.

Dito isso, começo meu texto falando sobre como eu fui parar em Casablanca. Era começo de 2018 e eu faria minha primeira viagem internacional. Depois de alguns meses juntando dinheiro, eu finalmente poderia pagar para conhecer um pouco do continente europeu.
Como estreante nas viagens internacionais e, claro, querendo economizar cada real meu que seria convertido para euro, comprei a passagem mais barata que encontrei, que era da Royal Air Maroc, a companhia aérea estatal do Marrocos. Assim, antes de chegar na Europa, meu voo faria uma escala em alguma cidade marroquina.

Minha passagem do Rio para Valencia, na Espanha, tinha escala de uma hora no aeroporto Mohammed V. Porém, um mês antes da viagem meu voo foi alterado e fiquei sabendo que agora faria uma escala de 24 horas em Casablanca. Mesmo que por apenas um dia, eu ia poder ver um pouco de um país árabe, com uma cultura totalmente diferente da minha. O primeiro lugar que eu pisaria fora do Brasil não seria mais na Europa, seria na África.

Graças ao querido professor do Abraço, Mohammed, marroquino de Casablanca, eu teria a oportunidade de passar o dia na cidade com duas amigas suas de lá. Ao longo do mês que faltava fui pesquisando atrações e o que poderia ver na cidade e também conhecendo e combinando com as minhas anfitriãs, Hajar e Rajaa, como passaríamos o dia. Então, juntei minhas economias, um pouco de coragem e nervosismo, e parti para o Marrocos.

Chegando lá, numa manhã fria de fevereiro, a primeira coisa que conheci foi a simpatia dos marroquinos e marroquinas. Desde a minha passagem pela imigração, ganhando um “obrigado” ao me despedir do funcionário, passando pelas simpáticas funcionárias de limpeza que me deram orientações e até elogios de brinde, até o senhor do câmbio que trocou meu dinheiro por dirhams marroquinos, todos foram muito acolhedores mesmo sem eu falar uma palavra em árabe, usando apenas o meu francês enferrujado.
Como o aeroporto Mohammed V é um pouco longe de centro da cidade (cerca de 30 quilômetros), a Hajar fez a gentileza de me encontrar lá com o motorista que nos levaria até sua casa. Mas também é possível chegar à cidade de táxi, parados ao montes em frente ao desembarque, de ônibus e também de trem, sendo a opção mais rápida e com o melhor custo benefício de transporte público.

Saindo do aeroporto e indo para Casablanca já era possível observar vários detalhes, paisagens e construções bem diferentes do que os olhos estavam acostumados. As placas, anúncios, letreiros, com exceção de poucos, estavam todos em árabe. Durante um dia eu seria analfabeta.

Assim que cheguei na casa da Hajar fui recebida pela sua avó com chá e docinhos. Era o primeiro chá de vários que beberíamos nesse dia. No Marrocos existe uma cultura do chá bem forte, com até uma maneira específica de servir, servindo o chá na xícara bem do alto. Marroquinos, em geral, bebem muito chá, principalmente chá de menta e de hortelã e todos bem doces. O chá é a bebida mais consumida do país e cartão de visita dos marroquinos em qualquer lugar que você chegue.

Logo depois me apresentaram outro prato que carrega muito da identidade marroquina, o tagine. Tradicional dos países do norte da África, tagine é, na verdade, o nome do recipiente onde o prato é feito e cozido. Consiste numa espécie de panela de barro que resiste a altas temperaturas e tem uma tampa em forma de cone, fazendo com que o vapor condensado do cozimento dos alimentos volte todo para a comida. Depois de pronto, o prato também é servido no mesmo recipiente e existem tagines de diferentes sabores, como carne, vegetais, frango e cordeiro.

Já devidamente apresentada à culinária marroquina, era hora de começar a conhecer Casablanca, afinal, eu tinha pouco tempo. Para ir até o centro da cidade, onde ficam os pontos turísticos mais famosos, precisamos pegar algum transporte, foi então que conheci um dos transportes mais usados em Casablanca, o petit taxi.

Na cidade, o sistema de transporte de ônibus não é suficiente para atender a população, assim os grands e petits taxis se popularizaram. O primeiro você pode pegar normalmente nas ruas, basta entender a mão e funciona de uma maneira parecida com um uber pool. Existem algumas rotas e caminhos pré definidos ou mais comuns, então você “chama” o táxi e pergunta se ele vai para a direção que quer ir, se ele não estiver cheio, você entra e paga um valor pré determinado de acordo com o lugar para onde vai, como se fosse uma passagem de ônibus ou metrô. Não estranhe se ver ou pegar algum grand taxi com mais do que a capacidade máxima de pessoas que um carro comporta, não é incomum. Já os petits taxis funcionam como táxis normais, onde você pega, bem mais caro, para uma corrida a um lugar no qual você determina exatamente.

Eu e Hajar chegamos, então, ao movimentado centro de Casablanca, e fomos caminhando até o cartão postal mais famoso da capital, a mesquita Hassan II, que é também a terceira maior mesquita do mundo, com uma área de 20 mil metros quadrados e capacidade para 25 mil fiéis.

O templo fica de frente para o mar, aumentando sua grandiosidade e proporcionando também um local agradável de passeios e caminhadas para os próprios marroquinos. Famílias inteiras e grupos de jovens permanecem no grande pátio da mesquita conversando, correndo e admirando a paisagem.
A Hassan II é a única mesquita do país que aceita visitas internas de pessoas não muçulmanas, teoricamente apenas nos horários das visitas guiadas, que são pagas e acontecem em horários pré determinados de acordo com a época do ano. Como já passávamos do meio da tarde, eu perdi a última visita do dia, que começava às 15h. Mas a minha anfitriã não pensava o mesmo. Ajeitou o lenço que eu levava no pescoço em volta da minha cabeça, me pediu para não falar em francês e me levou correndo pra dentro da construção.

Por dentro, a mesquita é tão linda e imponente quanto por fora. A quantidade e beleza dos diversos mosaicos encantam e constroem uma atmosfera de paz e tranquilidade. Ficamos um pouco na parte de reza destinada às mulheres, numa espécie de local acima do pátio central, onde é o local de reza dos homens.

Como minha presença dentro da mesquita não estava, digamos, dentro da legalidade, decidimos que já estava na hora de voltar à imensa área externa do templo. Fomos ao banheiro. O local, enorme e suntuoso, parecia exercer também uma espécie de função social para as mulheres. Lotado, tinha mulheres de todas as idades não só usando o banheiro mas também sentadas, confortavelmente conversando.
Bem, não estranhe se você não encontrar um vaso sanitário em alguns banheiros pelo país, os banheiros tradicionais do Marrocos, não tem. No lugar do vaso, há um buraco e duas marcações para colocação dos pés. Dia de usar o banheiro de uma maneira diferente!

Depois, continuamos nossa caminhada pelo centro da cidade, indo em direção a medina de Casablanca, a região comercial mais antiga onde predominam barracas e lojas pequenas e é a região que fica cercada por uma espécie de muro antigo, como uma fortaleza. Lá encontraríamos com a Rajaa e a Charifa, amiga e prima da Hajar.

A medina é um mundo à parte em Casablanca. Pessoas, muitas pessoas, andando, vendendo, comprando, gritando, é bem interessante. Medinas são partes antigas das cidades árabes geralmente muradas, como maneira de proteção de ataques de outros povos ou civilizações. Muitas vezes são um amaranhado de ruas e becos onde há ou já houve uma praça central, no coração da medina, onde saem ruas para o exterior das muralhas. Como eu estava com as meninas, foi mais fácil fugir um pouco do assédio dos vendedores, que querem vender tudo que tiverem para você. Recomendo bastante a visita como uma forma de conhecer e descobrir um pouco sobre a vida real dos marroquinos, além de uma oportunidade para comprar uma lembrança do país.

A medina vai se desenrolando por várias partes e se mesclando com o centro da cidade. Existe a parte das barracas, dentro dos portões do antigo muro, depois você vai passando pelas pequenas lojas, já nas ruas, por feiras ao ar livre e até praças onde muitos africanos de fora do Marrocos se misturam oferecendo uma variedade de serviços e produtos, como tranças, por exemplo.
Muitos africanos de diversas origens vão para o Marrocos com a esperança de emigrar para a Europa, mas quando não conseguem acabam ficando no país. É bem comum vê-los pelo centro da cidade, vendendo diferentes artigos ou oferecendo serviços.

Depois, fomos em direção a nossa última parada, o Palais Royal de Casablanca, no quartier Habous. Durante a caminhada de quase três quilômetros aprendi a difícil e assustadora arte dos/as marroquinos/as de atravessar as ruas sem prestar atenção no sinal, correndo, insanamente, e também provamos o salgadinho que é vendido em quase toda esquina do centro, o briwat.

O briwat é feito com massa folhada e faz parte da culinária marroquina.Eles são recheados com carne (principalmente frango ou cordeiro) misturada com queijo, limão e pimenta (bastante). São embrulhados em warqa (massa filo) em formato triangular ou cilíndrico. Também podem ser doces, recheados com pasta de amêndoa ou amendoim e fritos e depois mergulhados em mel quente aromatizado com água de flor de laranjeira. O meu, no caso, era para ser sabor de camarão, mas acho que acabei saboreando mais a pimenta e a massa mesmo.

Construído na década de 1920, o Palais Royal tem um estilo arquitetônico árabe-muçulmano, sendo muito moderno. Dentro do palácio, os jardins em estilo mediterrâneo projetados pelo arquiteto Forestier tornam o local ainda mais suntuoso. O Palais Royal é uma jóia de Marrocos, mas, infelizmente, não é aberto à visitação. Você pode para admirar suas imensas muralhas e principalmente sua entrada principal: uma porta muito alta, com vários mosaicos e encimada por um pequeno teto em azulejos verdes.

Além do palácio, o quartier Habous é famoso por ser uma área com rico comércio e local conhecido dos locais para sentar, olhar a rua e, adivinhem, tomar um chá de menta. E foi pra isso que fomos lá, obviamente.
Construído em 1917 e nos anos 40, o bairro Habous é uma espécie de medina do século XX, no sul da cidade. Originalmente projetado para acomodar famílias de comerciantes marroquinos, o local ainda é muito comercial hoje. Você encontrará de tudo: tapetes, móveis, babouches, azeitonas, roupas tradicionais, mel, cerâmica, temperos, livros… Cafés e restaurantes também fazem do lugar mais agradável. Além disso, no distrito de Habous, encontra-se a melhor confeitaria marroquina de Casablanca: Bennis Habous. Escondida em um pequeno beco, esta loja gourmet é extremamente famosa. O quartier Habous é muito agradável pela noite também.

As mesas da cafeteria eram todas postas de frente para a rua, de maneira que o grupo de pessoas não ficava em volta da mesa, de frente para si, mas, sim, de frente para a paisagem, para observar o movimento da rua.
Ali, conversando juntas, tomando chá, pudemos rir, falar das diferenças culturais entre nossos países, mas principalmente compartilhar nossas preocupações e desejos de jovens mulheres. Hajar, Rajaa e Charifa conseguiram me mostrar apenas em algumas horas que, embora viéssemos de culturas tão diferentes e tivéssemos opiniões tão distintas em alguns tópicos, tínhamos também muito em comum. Sonhos, preocupações e cobranças compartilhadas. Falamos umas às outras sobre como era ser mulher nos nossos países e todas as cobranças que nos eram impostas também. Talvez esse tenha sido um dos poucos momentos onde tive a certeza de presenciar o que é sororidade.

Saindo da cafeteria, fomos à procura de um grand taxi para nos levaria de volta para o bairro da Hajar. Ao lado da sua casa, paramos num pequeno restaurante de sírios que migraram para Casablanca. Comi o melhor falafel da minha vida e também um sanduíche de shawarma.

A casa da Hajar tinha uns cômodos bem típicos, algumas salas cheias de sofás que margeavam todas as paredes e com o chão e paredes forrados com diferentes tapetes, chamados comumente de sallon marocain. Pareciam salas onde homens ou mulheres ficavam quando se reuniam. Ainda tivemos tempo para tomar um último chá, dessa vez também com as mães, tias e avó da casa.

E foi assim que terminou o meu único dia no Marrocos, um país que me mostrou tantas perspectivas novas em apenas algumas horas. Dormimos todas no sallon, com aquele sentimento de sororidade de novo no ar. Obrigada Hajar, Rajaa e Charifa por me proporcionarem essa experiência. Espero retornar ao Marrocos para revê-las e conhecer mais de tudo que esse país pode mostrar.

Links úteis:

Sobre transporte em Casablanca, clique aqui

Visitas na mesquita Hassan II, veja aqui

Sobre a medina de Casablanca, tenha informações sobre o que ver aqui

Confeitaria Bennis Habous, veja aqui

Sobre o que fazer no Quartier Habous, clique aqui

Dicas de passeios em Casablanca, veja aqui

Roberta Sousa, Coordenadora de Comunicação do Abraço RJ
2019-09-13T13:03:00-03:00